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A Desconstrução da Vantagem Governamental: Por Que Governistas Perdem na América do Sul?

G1

No cenário político global, é um senso comum que presidentes e partidos no poder desfrutam de uma vantagem inerente ao buscar a reeleição ou eleger seus sucessores. A visibilidade da máquina estatal, a capacidade de pautar o debate público e a apresentação de resultados concretos são fatores que, teoricamente, deveriam catapultar candidatos governistas à vitória. Contudo, a América do Sul apresenta um paradoxo notável que desafia essa lógica. Um levantamento recente revela que, nas últimas 20 eleições presidenciais realizadas em países independentes e democráticos da região desde 2018, candidatos apoiados pelo governo em exercício venceram em apenas três ocasiões, indicando uma profunda e persistente tendência à alternância de poder.

O Cenário Surpreendente da Alternância Política

A América do Sul tem se consolidado como um terreno fértil para a mudança política, onde o incumbente raramente consegue perpetuar seu projeto através de um candidato aliado. Essa dinâmica contraria as expectativas de que o acesso aos holofotes e aos recursos governamentais conferiria uma primazia eleitoral. Em vez disso, a região tem visto uma consistente rejeição aos projetos de continuidade, com o eleitorado demonstrando uma preferência marcante por novas propostas e lideranças, mesmo em nações com instituições democráticas consolidadas. A taxa de sucesso extremamente baixa para governistas aponta para um ceticismo generalizado em relação às administrações vigentes, forçando uma reflexão sobre os fatores que impulsionam essa busca incessante por renovação.

Os Pontos Fora da Curva: A Persistência do Partido Colorado

Em meio a um mar de derrotas governistas, o Paraguai se destaca como a única nação que registrou vitórias consecutivas para o partido no poder desde 2018. O Partido Colorado demonstrou uma resiliência notável, mantendo-se no comando do país em dois pleitos sucessivos. Em 2018, Horacio Cartes passou o bastão para Mario Abdo Benítez, ambos da mesma sigla. Mais recentemente, em 2023, foi a vez de Santiago Peña, também do Partido Colorado, assumir a presidência após a gestão de Abdo Benítez. Essa hegemonia política paraguaia contrasta fortemente com o restante do continente, onde a alternância se tornou a norma, e sugere a existência de fatores sociopolíticos e eleitorais específicos que blindam o Partido Colorado contra a tendência regional de desaprovação do status quo.

O Mosaico de Derrotas: Crises, Desgaste e Ausência de Candidatos

A maioria esmagadora das 17 derrotas governistas reflete uma combinação de fatores complexos. Em muitos casos, os presidentes em exercício chegam ao fim de seus mandatos com baixos índices de popularidade, resultado de crises econômicas, escândalos de corrupção ou um desgaste natural da gestão. Essa impopularidade frequentemente leva à incapacidade de apresentar um candidato competitivo ou, em situações mais extremas, à ausência total de um representante direto do governo na disputa. Exemplos recentes incluem a Colômbia e o Peru, onde os resultados eleitorais mais recentes confirmaram a tendência. No caso peruano, a intensa instabilidade política levou a mandatos-tampão e à ausência de um candidato governista propriamente dito, culminando em uma vitória externa ao establishment vigente.

A lista de nações onde o governismo não se manteve no poder é extensa e variada ideologicamente: Brasil (2018 e 2022), Argentina (2019), Uruguai (2019), Bolívia (2020), Equador (2021 e 2023), Peru (2021), Chile (2021) e Colômbia (2018 e 2022). Em cada um desses contextos, os eleitores optaram por uma mudança, seja ela para a esquerda, para a direita ou para o centro político. É crucial notar que a derrota governista não se traduz necessariamente em uma virada ideológica completa, mas sim na rejeição da administração vigente e na busca por novas direções, evidenciando a fluidez e a imprevisibilidade do cenário eleitoral sul-americano. A Venezuela, por sua vez, foi excluída da análise devido a questionamentos sobre a lisura de suas eleições pela comunidade internacional, reforçando que o levantamento se concentra em democracias com processos eleitorais reconhecidamente justos.

Implicações para a Governança e a Democracia Regional

A constante alternância de poder na América do Sul tem implicações significativas para a governabilidade e o desenvolvimento democrático da região. Se, por um lado, ela demonstra a vitalidade dos sistemas democráticos e a capacidade do eleitorado de exigir responsabilidade e mudança, por outro, pode acarretar desafios para a continuidade de políticas públicas de longo prazo. A necessidade de governos se adaptarem rapidamente às demandas de uma população que demonstra pouca tolerância ao status quo e que está disposta a trocar de liderança a cada pleito é uma realidade imponente. Essa dinâmica exige que os líderes políticos estejam continuamente conectados com as aspirações de seus cidadãos, sob o risco de serem varridos nas próximas urnas. A ausência de um 'cheque em branco' eleitoral para quem está no poder reconfigura as estratégias políticas e força uma governança mais responsiva.

O panorama atual sugere que a América do Sul é um laboratório de democracia participativa, onde o voto é um poderoso instrumento de fiscalização e renovação. A ideia de que o poder no governo confere uma 'vantagem inicial' precisa ser reavaliada, pelo menos nesta parte do mundo. A imprevisibilidade dos resultados eleitorais e a constante troca de guarda presidencial se tornaram características definidoras da política regional, desafiando percepções tradicionais e redefinindo o que significa ser um governista em campanha.

Fonte: https://g1.globo.com

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