Desde sua chegada ao Rio de Janeiro em 1994, ano em que a seleção brasileira encerrou um jejum de 24 anos sem Copas do Mundo, o jornalista inglês Tim Vickery tem observado de perto a complexa relação do Brasil com seu futebol. Colaborador da BBC Sport e de programas esportivos brasileiros, Vickery aponta um paradoxo marcante: a imagem global de um país alegre e festivo contrasta drasticamente com um sentimento de superioridade e raiva que permeia a mentalidade dos torcedores brasileiros quando o assunto é a seleção. Uma análise aprofundada revela como a gloriosa história do esporte moldou expectativas por vezes irrealistas, gerando uma frustração persistente.
O Peso da História: Entre a Superioridade e a Suscetibilidade
A percepção de superioridade no futebol brasileiro, segundo Vickery, é intrinsecamente ligada à memória de um período dourado entre 1958 e 1970, quando o Brasil conquistou três Copas do Mundo em apenas doze anos. Essa era não apenas cravou o nome do país na elite do futebol mundial, mas também incutiu a crença de que a seleção 'tem de ganhar todas as Copas'. Essa mentalidade não se restringe apenas aos torcedores locais; admiradores estrangeiros, cativados por aquele passado épico, também se veem frustrados quando o time atual não consegue replicar o nível de excelência que um dia encantou o mundo.
Vickery ressalta que os brasileiros se mostram particularmente sensíveis a críticas externas. Uma sensação de que 'o mundo está contra nós' é comum, o que se choca com a imagem internacional de alegria do país. Paradoxalmente, o jornalista argumenta que muitas das críticas à seleção atual são, na verdade, uma forma de reverência às grandes equipes do passado, especialmente a de 1970, que estabeleceram um padrão de beleza e eficiência raramente alcançado na história do esporte.
Carlo Ancelotti: Pragmatismo Diante de Expectativas Ideológicas
A chegada do técnico italiano Carlo Ancelotti à seleção brasileira representou um fascinante 'choque cultural', conforme observa Vickery. Ancelotti, conhecido por seu pragmatismo e habilidade em extrair o melhor dos jogadores, nunca teve a pretensão de revolucionar a filosofia de jogo da equipe. Sua abordagem foi comparada à de um 'médico que chega com um Band-Aid e o coloca no lugar certo', focado em solucionar problemas pontuais e adaptar-se ao material humano disponível. Ele demonstrou que, em torneios de curta duração, não é preciso ser o melhor o tempo todo, mas sim no momento certo, utilizando as fases iniciais como laboratório para encontrar a formação ideal.
As expectativas de que um técnico estrangeiro pudesse transformar completamente a seleção em apenas um ano eram, portanto, irrealistas. Ancelotti não é um 'grande idealista' ou 'filósofo' que impõe uma identidade única; pelo contrário, ele busca uma equipe versátil, capaz de se adaptar às demandas de cada partida. Sua serenidade e a capacidade de tomar decisões difíceis e muitas vezes impopulares, como as mudanças que definiram a vitória contra o Japão, são marcas de sua carreira e seu maior mérito à frente da seleção, contrastando com a visão brasileira que ainda se prende à ideia de um futebol sempre espetacular e avassalador.
O Futebol Globalizado e a Nostalgia Inerente ao Torcedor Brasileiro
A diferença entre o futebol de 1970 e o de hoje é colossal. O cenário global se transformou, com inúmeros países elevando o nível de profissionalismo e investimento no esporte. No entanto, Vickery aponta que muitos torcedores brasileiros acompanham pouco o futebol internacional, o que os leva a julgar a seleção sem o devido contexto de um esporte muito mais competitivo e equilibrado. Essa falta de perspectiva alimentaria uma nostalgia constante, onde a ideia de superioridade da seleção persiste mesmo entre gerações que nunca viram o Brasil ser campeão mundial.
Para o jornalista, a Copa do Mundo deveria ser 'uma viagem', um processo, mas no Brasil 'parece que só o destino importa'. Se a jornada não culmina com o título, todo o percurso é considerado em vão. Essa mentalidade gera uma torcida curiosamente ambivalente: ao mesmo tempo 'mal acostumada' pelos sucessos históricos e 'frustrada' pelos resultados recentes, culminando em cenas como a de um goleiro da seleção sendo vaiado no Maracanã após sofrer um gol, mesmo em uma vitória elástica. Tais reações sublinham o profundo descompasso entre a abordagem pragmática do técnico e as elevadas, e muitas vezes irrealistas, expectativas de um país que ainda vive à sombra de um passado glorioso.
Fonte: https://g1.globo.com