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Bolívia Reduz Bloqueios em Rodovias Após Acordo Sindical e Decreto de Estado de Exceção

© REUTERS/Patricia Pinto/Proibida reprodução

Após um período de intensa paralisação que se estendeu por cinquenta dias, a Bolívia testemunha uma significativa diminuição no número de bloqueios de rodovias, uma medida de protesto contra as políticas do governo do presidente Rodrigo Paz. Essa redução é atribuída principalmente à concretização de um acordo com a Central Operária Boliviana (COB) na sexta-feira (19) e à subsequente decretação de estado de exceção no sábado (20), cuja confirmação pelo Parlamento ocorreu na madrugada deste domingo (21).

Cenário de Protestos e a Virada Estratégica

O país andino havia enfrentado um recrudescimento dos protestos desde janeiro, culminando em maio e junho com a promulgação de uma lei de terras que gerou forte descontentamento entre os camponeses. As manifestações, que chegaram a registrar mais de 80 pontos de bloqueio em dias específicos, contestavam as políticas governamentais, classificadas como “neoliberais”, e pediam a renúncia de Rodrigo Paz, que ocupa a presidência há apenas sete meses, sucedendo quase duas décadas de governos de esquerda. A estratégia de bloqueio, uma tática historicamente enraizada na Bolívia desde os tempos da luta anticolonial, revelou-se altamente eficaz na paralisação de cidades, mas impôs um custo elevado à população e aos manifestantes.

De acordo com informações da Administradora de Estradas Bolivianas (ABC), a Bolívia amanheceu este domingo com 31 bloqueios ativos em regiões estratégicas como La Paz, Cochabamba, Oruro e Santa Cruz. No entanto, ao longo do mesmo dia, esse número caiu drasticamente para 12, conforme o painel de monitoramento em tempo real da ABC. A doutoranda em ciência política pela USP, Alina Ribeiro, destacou à Agência Brasil que o esgotamento gerado por 50 dias de bloqueios, que resultaram em escassez de alimentos e medicamentos, além de perdas de vidas e a paralisação de cidades, foi um fator crucial para a diminuição das mobilizações, tornando a negociação uma saída mais viável para ambos os lados.

Os Pilares do Acordo com a Central Operária Boliviana (COB)

A Central Operária Boliviana (COB), principal entidade sindical do país, que havia aderido aos protestos reivindicando reajustes salariais e denunciando o alto custo de vida, firmou um acordo com o governo de Rodrigo Paz. Mario Argollo, presidente da COB, explicou que o pacto estabelece um período de 90 dias para avaliar o cumprimento dos compromissos governamentais. Ele também apelou aos demais grupos envolvidos nas manifestações para que suspendessem os bloqueios, visando a pacificação do país.

Entre os pontos centrais do acordo, divulgados pela mídia estatal boliviana, estão o compromisso governamental de não criminalizar os protestos nem perseguir lideranças sociais e sindicais. Adicionalmente, foi estabelecida a formação de uma comissão conjunta, composta por representantes do governo e da COB, para tratar da libertação de líderes detidos durante as manifestações. O governo também se comprometeu a não privatizar empresas públicas estratégicas e a não ceder recursos nacionais a interesses privados, sejam eles nacionais ou estrangeiros. Em uma rede social, o presidente Paz celebrou o acordo, enfatizando o fortalecimento da mineração estatal e a criação de empregos, em coordenação com a Corporação Mineira de Bolívia (COMIBOL).

A Implementação do Estado de Exceção

No dia seguinte à assinatura do acordo com a COB, o presidente Rodrigo Paz decretou estado de exceção em todo o território boliviano. Esta medida, que vinha sendo preparada há semanas e incluiu a revogação de uma legislação anterior de estado de exceção para a aprovação de um novo texto pelo Parlamento, confere ao governo poderes para impor toque de recolher em áreas específicas e autoriza o uso das Forças Armadas na repressão a manifestantes, após um longo período de instabilidade.

Ao anunciar a medida, o presidente boliviano reiterou sua posição de criminalizar os protestos, alegando, sem apresentar provas, que os bloqueios seriam financiados pelo narcotráfico. Essa retórica alinha-se a um discurso anteriormente utilizado pelos Estados Unidos em apoio ao governo de La Paz, sugerindo uma 'estratégia organizada de desestabilização contra a democracia e um governo constituído' que o país estaria enfrentando.

Perspectivas Futuras e a Fragilidade da Paz

A Bolívia inicia uma fase de transição, onde a redução dos bloqueios, impulsionada pelo acordo sindical e a medida de exceção, oferece um respiro à sociedade e à economia. No entanto, a paz ainda se mostra frágil, dependendo do cumprimento dos compromissos assumidos pelo governo e da aceitação das medidas por todos os grupos insatisfeitos. O período de 90 dias de monitoramento do acordo com a COB será crucial para determinar a estabilidade do cenário político e social boliviano, num contexto onde a estratégia de protesto, embora eficaz, demonstrou ser insustentável a longo prazo para a população.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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