A posição de lateral sempre foi sinônimo de excelência e protagonismo na história da Seleção Brasileira. Nomes lendários como Carlos Alberto Torres, que eternizou um dos gols mais icônicos das Copas, e a dupla Cafu e Roberto Carlos, que revolucionou a faixa lateral, estabeleceram um legado de jogadores que combinavam maestria defensiva com um poder ofensivo avassalador. Contudo, o futebol é um esporte em constante mutação, e o perfil do lateral brasileiro também se transformou radicalmente nos últimos anos.
Sob o comando de Carlo Ancelotti, a equipe nacional parece adotar uma filosofia que prioriza a solidez defensiva e a disciplina tática, redefinindo as expectativas para quem ocupa essas posições. Longe das arrancadas incessantes e dos cruzamentos precisos que marcaram épocas passadas, o lateral moderno na Seleção foca agora em uma contribuição mais equilibrada, onde a capacidade de marcação muitas vezes supera a projeção ofensiva. Essa mudança estratégica pode ser a chave para o Brasil na busca pelo tão cobiçado hexacampeonato mundial em 2026.
O Legado dos Laterais Ofensivos: Uma Marca Registrada do Brasil
A tradição brasileira de laterais com forte apelo ofensivo é inegável, e sua gênese remonta a momentos históricos. O gol que selou a vitória do Brasil na final da Copa de 1970, uma verdadeira obra-prima coletiva, foi assinado por Carlos Alberto Torres, capitão e lateral-direito que não só era um exímio defensor, mas também um elemento surpresa no ataque. Sua performance ajudou a moldar a percepção da posição, mostrando que o lateral podia e deveria ser uma peça fundamental nas ações ofensivas.
Posteriormente, essa escola foi enriquecida por talentos como Leonardo e Branco, campeão mundial em 1994 e autor de uma das cobranças de falta mais memoráveis da história das Copas. O ápice dessa era, entretanto, foi alcançado em 2002, com Cafu e Roberto Carlos. A dupla elevou a posição a um patamar sem precedentes, transformando as laterais em verdadeiros corredores de ataque e desempenhando papéis cruciais na conquista do pentacampeonato, com suas subidas constantes e capacidade de decisão em momentos-chave.
A Nova Realidade Tática: Priorizando a Versatilidade e a Defesa
A busca por um novo título mundial impulsionou uma reavaliação das funções em campo, e os laterais não são exceção. O capitão Danilo, uma das vozes mais experientes do elenco, ressalta que as comparações com os lendários Cafu e Roberto Carlos precisam considerar a evolução do futebol. Ele enfatiza que a função do lateral hoje é significativamente diferente, muitas vezes focada em movimentos de contra-pressão defensiva e apenas aparições esporádicas no ataque, um indicativo da prioridade tática atual.
Essa mudança de paradigma reflete a necessidade de maior solidez e controle em um futebol cada vez mais equilibrado e físico. A liderança, característica sempre valorizada na posição, permanece crucial, mas agora é acompanhada de uma demanda por inteligência tática e capacidade de adaptação às diferentes fases do jogo. Não se trata de abdicar completamente do ataque, mas de executá-lo com maior discernimento e dentro de um sistema bem definido.
O Perfil do Lateral Moderno: Um Híbrido entre Defensor e Construtor
No esquema de Carlo Ancelotti, a definição das laterais se tornou uma das posições mais estratégicas, especialmente após desafios como cortes por lesão. Observa-se uma clara preferência por jogadores que exibem grande versatilidade defensiva. Muitos dos candidatos atuais para as vagas de lateral já atuaram ou têm experiência como zagueiros, o que lhes confere uma base sólida na marcação e no posicionamento.
Essa flexibilidade defensiva é vista como um diferencial essencial, permitindo que a equipe mantenha a estrutura tática mesmo sob pressão. Embora haja jogadores como Douglas Santos, do Zenit, que é um lateral de origem e busca contribuir em ambas as fases, a tendência geral é por um perfil que possa oferecer robustez à retaguarda sem comprometer a organização. A capacidade de defender com eficácia e ser uma opção no ataque, quando o jogo permite, é a nova régua para esses atletas.
O Objetivo Final: A Busca pela Taça
Independentemente da função tática atribuída, seja a de um defensor incansável ou de um ala com liberdade para atacar, o objetivo principal da Seleção Brasileira permanece imutável: conquistar a Copa do Mundo. A estratégia de Ancelotti para os laterais reflete uma adaptação às exigências do futebol contemporâneo, visando construir uma equipe balanceada e competitiva.
Mais do que rememorar as arrancadas espetaculares de Cafu, os cruzamentos cirúrgicos de Roberto Carlos ou as subidas imponentes de Carlos Alberto Torres, a torcida brasileira anseia por um gesto em particular: o de ver o capitão levantar a taça da Copa do Mundo. Essa é a meta que impulsiona todas as mudanças táticas e a busca incessante por um time capaz de trazer de volta a glória máxima ao futebol pentacampeão.
Fonte: https://g1.globo.com