Um relatório alarmante da Human Rights Soccer Alliance revela que eventos de futebol nos Estados Unidos se tornaram um foco estratégico para as operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), visando a detenção de imigrantes. A denúncia surge em um cenário de crescente preocupação, especialmente com a proximidade da Copa do Mundo, sediada nos EUA. Desde o início de 2025, o documento aponta a detenção de 17 indivíduos – entre jogadores, treinadores e familiares – ligados ao esporte, com alguns já deportados. Esta realidade contrasta dolorosamente com a imagem da fotografia premiada 'Separados pelo ICE', de Carol Guzy, que capturou a dura realidade das famílias afetadas.
O Futebol como Ponto Focal das Ações Imigratórias
A escolha do futebol como alvo das autoridades de imigração não é aleatória. Segundo o estudo, este esporte possui raízes profundas e um papel central nas comunidades imigrantes latino-americanas nos EUA, servindo há gerações como espaço de pertencimento e expressão cultural. Contudo, essa conexão comunitária agora o torna vulnerável. As ações de fiscalização se estenderam para locais essenciais do futebol, como escolas, parques, centros comunitários e instalações esportivas, desvirtuando o caráter inclusivo desses espaços e gerando um clima de temor e insegurança. As operações do ICE nas ruas do país, intensificadas a partir de 2025, demonstram uma clara prioridade nessas comunidades.
Casos Documentados de Detenções e Deportações
O relatório da Human Rights Soccer Alliance não apenas expõe a estratégia, mas também detalha os impactos diretos dessas ações, documentando 17 situações específicas. Entre os casos, destaca-se a deportação do jovem jogador Emerson Colindres para Honduras, ocorrida no dia de sua formatura no Ensino Médio em Ohio. Outros incidentes incluem a prisão de dois jogadores durante um treino em um complexo esportivo em Nova York e a detenção de um imigrante na entrada do estádio MetLife, onde acompanhava os filhos para assistir à final do Mundial de Clubes da FIFA. Tais exemplos ilustram a abrangência e a arbitrariedade das operações, que não poupam atletas nem torcedores em momentos de lazer ou conquista pessoal.
Alerta Máximo para a Copa do Mundo: Cidades-Sede em Risco
O documento enfatiza uma preocupação particular com a Copa do Mundo de 2026, visto que não há proibições oficiais ou orientações emitidas para impedir prisões imigratórias durante os jogos. As cidades-sede, inclusive, são apontadas como zonas de risco elevado. Dados governamentais analisados pela ONG revelam que, somente entre janeiro e outubro de 2025, o ICE prendeu mais de 92 mil pessoas nas regiões que receberão as partidas do Mundial. Este número, acima da média, sublinha a intensificação das ações nessas localidades, indicando um cenário desfavorável e perigoso para imigrantes e visitantes internacionais durante o megaevento esportivo.
Pedidos Urgentes à FIFA e à Não Cooperação
Diante da gravidade da situação, a Human Rights Soccer Alliance direcionou um apelo formal à FIFA, solicitando medidas concretas para salvaguardar a integridade do esporte e a segurança dos participantes. As demandas incluem a garantia de que a política anti-imigração não seja aplicada em nenhum dos locais da Copa do Mundo e seus arredores, além de requisitar que a FIFA se abstenha de compartilhar dados do público com autoridades de imigração. Adicionalmente, o relatório aconselha que as equipes participantes da Copa do Mundo não cooperem com o ICE ou outras autoridades de imigração, a menos que apresentem um mandado judicial válido, reforçando a defesa dos direitos individuais contra ações arbitrárias.
Ativistas Pedem Boicote: "Não Venham aos EUA"
A indignação com as práticas do ICE levou grupos de defesa dos direitos dos imigrantes a se reunirem em Miami, diante da sede da FIFA, para expressar suas apreensões e emitir um alerta contundente. Ativistas como Yarelíz Méndez Zamora, do Comitê de Serviço dos Amigos Americanos, advertiram sobre a iminência de detenções arbitrárias, recusa de entrada e discriminação racial. O cineasta e ativista Billy Corben foi ainda mais incisivo, aconselhando torcedores, jogadores, técnicos e árbitros de todo o mundo a reconsiderarem suas viagens aos EUA para a Copa do Mundo, mesmo aqueles com vistos válidos. A preocupação se intensifica com incidentes recentes, como a proibição da entrada do árbitro somaliano Omar Artan, demonstrando a imprevisibilidade e o risco para visitantes internacionais.
Este cenário complexo e preocupante lança uma sombra sobre a Copa do Mundo de 2026, transformando um evento de união global em um potencial foco de violações de direitos. A comunidade internacional, a FIFA e os próprios participantes enfrentam o desafio de garantir que a paixão pelo futebol não se torne uma porta de entrada para a perseguição e a separação de famílias, reforçando a urgência de uma postura firme em defesa dos direitos humanos no contexto esportivo.
Fonte: https://g1.globo.com