À medida que se aproximava o prazo imposto por Washington para que companhias estrangeiras desvinculassem suas operações do conglomerado econômico-militar cubano Gaesa, alvo de recentes sanções americanas, um número crescente de empresas tem anunciado o encerramento ou a redução substancial de suas atividades na ilha. Essa onda de retiradas sinaliza o impacto direto da política de endurecimento do governo dos Estados Unidos sobre o ambiente de negócios em Cuba, gerando apreensão e incerteza no cenário econômico local.
A Escalada das Medidas Restritivas de Washington
Em 1º de maio, o então presidente americano, Donald Trump, formalizou uma ordem executiva que elevou o nível das sanções contra Cuba, reiterando a percepção de que a nação caribenha, distante apenas 150 km da costa da Flórida, representa uma "ameaça extraordinária" à segurança nacional dos Estados Unidos. Essa medida veio somar-se a um bloqueio petrolífero que já estava em vigor desde janeiro do mesmo ano. A administração Trump concentrou especial atenção no Grupo de Administración Empresarial S.A. (Gaesa), uma entidade vinculada às Forças Armadas cubanas e designada como um dos primeiros alvos sob a nova diretriz executiva.
Diante desse cenário, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac) do Departamento do Tesouro americano estabeleceu a próxima sexta-feira (5) como limite para que empresas estrangeiras com laços comerciais com o Gaesa reajustassem suas operações. O descumprimento do prazo acarretaria severas sanções, incluindo restrições ao acesso ao sistema financeiro internacional, a proibição de bancos operarem com essas companhias e o possível congelamento de ativos, forçando uma reavaliação estratégica por parte dos investidores.
Grandes Redes Hoteleiras Lideram a Retirada
O setor hoteleiro, pilar da economia cubana e um dos primeiros a se abrir ao capital estrangeiro após a crise desencadeada pela queda do bloco soviético em 1991, foi um dos mais afetados. A rede espanhola Meliá, um dos gigantes do turismo na ilha, anunciou em 3 de maio a interrupção de suas operações em 15 hotéis geridos em parceria com o Gaesa, justificando a decisão pela "evolução dos acontecimentos e circunstâncias no contexto geopolítico, social, jurídico e econômico da República de Cuba". Curiosamente, a Meliá não fez menção aos outros 19 empreendimentos que mantinha sob administração conjunta com o Ministério do Turismo cubano, indicando uma seletividade nas suas ações.
A Meliá não foi a única a reagir. A também espanhola Iberostar informou que deixou de gerenciar 12 hotéis associados ao Gaesa, embora continue ativa em outras seis unidades ligadas ao Ministério do Turismo. Do Canadá, a Blue Diamond, outra importante operadora, também confirmou o encerramento de suas atividades em Cuba, citando a complexa situação do setor. Além disso, o grupo asiático Archipelago International está em fase de avaliação para decidir se limitará sua presença ou se retirará completamente da ilha, o que indica uma tendência de êxodo em diversas frentes do segmento turístico.
O Setor de Mineração em Xeque
As ramificações das sanções de Washington estenderam-se para além do turismo, atingindo também o estratégico setor de mineração. A canadense Sherritt, que operava na extração de níquel e cobalto desde a década de 1990 por meio da empresa mista General Nickel Company S.A., tornou-se, em 7 de maio, a primeira empresa estrangeira a anunciar sua saída total de Cuba. A decisão da Sherritt destaca a abrangência das medidas americanas e o receio das companhias em manter vínculos com qualquer entidade cubana que possa ser alvo de restrições futuras.
Gaesa: O Coração da Controvérsia Econômica Cubana
O Grupo de Administración Empresarial S.A. (Gaesa) encontra-se no epicentro dessa disputa. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, um ferrenho crítico do governo de Havana, acusou publicamente os líderes cubanos de corrupção e desvio de recursos por meio do Gaesa. Rubio ressaltou que o ex-presidente Raúl Castro foi o fundador do conglomerado, que, segundo estimativas do Departamento de Estado dos EUA, detém ativos avaliados em 18 bilhões de dólares e controla até 70% da economia cubana. Essas alegações reforçam a justificativa de Washington para as sanções.
Em resposta, o governo cubano defendeu enfaticamente o papel do Gaesa, argumentando que a entidade foi estabelecida na década de 1990 com o propósito de contornar o embargo americano, imposto desde 1962, e gerar as divisas necessárias para impulsionar a economia do país em um momento de profunda crise pós-soviética. Essa defesa evidencia a visão de Havana de que o conglomerado é uma ferramenta essencial para a sobrevivência econômica nacional frente às adversidades internacionais.
Impacto Econômico e Perspectivas Futuras
A saída em massa dessas corporações internacionais projeta um cenário sombrio para a economia cubana. O economista e consultor Daniel Torralbas avaliou à AFP que "o impacto para a economia cubana da saída de todas essas companhias internacionais no curto prazo é devastador". Ele foi ainda mais enfático ao prever que esse êxodo "transforma 2026 no pior ano da história econômica de Cuba nos últimos 70 anos", sinalizando uma recessão profunda e prolongada como consequência direta da pressão exercida pelas políticas americanas.
A medida em que as empresas estrangeiras se desvinculam ou reduzem suas operações, Cuba enfrenta não apenas a perda de investimentos e divisas, mas também o isolamento econômico, aprofundando os desafios para um país já sob intenso escrutínio internacional e buscando formas de manter sua estabilidade em um contexto geopolítico complexo.
Fonte: https://g1.globo.com