Em um recente feriado prolongado, a cidade de Cavalcante, em Goiás, foi palco de uma significativa celebração cultural que transcendeu o entretenimento para se tornar um ato de profunda ressignificação histórica. A 4ª Mostra Afro Cena e a 3ª Mostra de Teatro Afro Cena tomaram o Osoca, um local que outrora abrigou a cadeia pública e testemunhou violências contra pessoas escravizadas, transformando suas ruínas em um vibrante centro de arte e encontro.
Osoca: Das Marcas do Passado ao Palco da Cultura
Conhecido como o maior território quilombola do Brasil, o território Kalunga em Cavalcante é o berço do Osoca, sigla para 'Obras Sociais da Paróquia da Senhora Sant'Ana de Cavalcante'. Contudo, a história desse edifício é muito mais complexa e dolorosa. Antes de se tornar um espaço de ações sociais, o terreno onde hoje se ergueu o Osoca foi, por séculos, um lugar de opressão, funcionando como guilhotina e, posteriormente, como cadeia pública. Essas memórias de sofrimento e violência, especialmente contra pessoas escravizadas, permanecem latentes em suas paredes.
A decisão de sediar o festival neste local não é um mero acaso, conforme explicou Edymara Diniz, uma das coordenadoras do evento. 'Ao trazer o teatro negro para esse espaço, afirmamos que um local que já foi cenário de dores pode se ressignificar por meio da arte', pontua. O objetivo, portanto, não é apagar o passado, mas confrontá-lo, transformando as ruínas da opressão em um catalisador para a expressão cultural e a afirmação da identidade quilombola.
Fortalecimento da Identidade e Acesso à Arte
Para a comunidade de Cavalcante, a Mostra Afro Cena representa muito mais do que uma série de espetáculos. Fátima Tertuliano, também coordenadora do evento, destacou a importância de ampliar o acesso à arte e à cultura em uma cidade que, notavelmente, carece de um teatro ou de equipamentos culturais dedicados às artes cênicas. O evento, portanto, preenche uma lacuna fundamental, oferecendo à população a oportunidade de interagir diretamente com diversas formas de expressão artística.
A iniciativa vai além da mera apreciação, promovendo a participação ativa da comunidade na construção do festival, desde a produção e organização até as atividades formativas. Essa colaboração multifacetada fortalece os laços sociais, gera oportunidades de desenvolvimento local e, acima de tudo, reforça a identidade e o senso de pertencimento. 'Eu acredito que isso fortalece a identidade local, gera oportunidades e aproxima as pessoas da arte', considera Fátima Tertuliano, ressaltando o valor imaterial que o evento agrega à vida dos moradores.
Uma Celebração Cultural Abrangente em Território Kalunga
A programação da Mostra Afro Cena foi cuidadosamente elaborada para oferecer uma experiência rica e diversificada. Artistas, artesãos, cozinheiras, estilistas e empreendedores culturais, majoritariamente negros e quilombolas, estiveram presentes, celebrando a riqueza da cultura local e regional. O público teve acesso a uma vasta gama de atividades que incluíram espetáculos teatrais, apresentações musicais, oficinas, rodas de conversa e outras atividades formativas, promovendo o intercâmbio de saberes e talentos.
Dentre os destaques musicais, a abertura do evento contou com a Pequena Orquestra de Cavalcante, a Curraleira Engenho 2, a Dança Sussa Kalunga e o cantor quilombola Allexy Nerys. Nos dias seguintes, a Mostra de Teatro Afro Cena trouxe à cena produções como o espetáculo Danúbio, oriundo do Distrito Federal, o Sarará Crioulo, fruto da colaboração entre artistas de Cavalcante e do Quilombo Kalunga, o recital Vozes Negras, de Salvador, e a impactante performance Ancestrais a Benção, realizada por um coletivo de mulheres negras e indígenas de Goiás. Cada apresentação foi um testemunho da vitalidade e da diversidade da arte afro-brasileira.
O Legado da Arte na Ressignificação Histórica
Ao transformar um local marcado pela dor em um espaço de efervescência cultural, a Mostra Afro Cena em Cavalcante reafirma o poder transformador da arte e da cultura. É um testemunho da resiliência e da capacidade da comunidade quilombola de reescrever sua própria história, utilizando a criatividade como ferramenta de cura, empoderamento e celebração da vida. O Osoca, que antes representava um passado de violência, agora pulsa com a energia de um futuro construído sobre a base da memória, da arte e da união, consolidando-se como um marco de resistência cultural e identidade no coração do Brasil.