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O Véu de Silêncio: Por Que a Mãe de Kim Jong-un Permanece um Mistério Nacional

G1

Entre os muitos enigmas que envolvem a figura do líder norte-coreano Kim Jong-un, um dos mais persistentes e intrigantes reside no silêncio absoluto em torno de sua mãe, Ko Yong-hui. Ao longo de seus quinze anos no comando do país, Kim jamais a mencionou publicamente pelo nome, uma omissão notável que contrasta drasticamente com a reverência dedicada às mães dos líderes anteriores. Enquanto figuras como Kang Pan-sok e Kim Jong-suk são elevadas ao status de 'mães da Coreia' e honradas com inúmeras homenagens, a progenitora do atual governante é uma presença fantasma na narrativa oficial, uma obscuridade cuidadosamente mantida que esconde profundas implicações para a legitimidade de sua dinastia.

A Linhagem do Monte Paektu e o Vazio de Ko Yong-hui

A base da ditadura hereditária norte-coreana repousa sobre o conceito da 'linhagem do Monte Paektu', uma referência à montanha mais alta da Península Coreana. Este local é mitologicamente celebrado como o berço do povo coreano e, historicamente, como o palco das atividades de guerrilha do fundador Kim Il-sung contra a colonização japonesa. A sacralidade dessa linhagem exige uma pureza irrepreensível dos seus membros. Contudo, ao contrário das matriarcas anteriores do regime, Ko Yong-hui não possui qualquer marco, instituição ou tributo público que leve seu nome, sendo deliberadamente omitida do panteão de heróis nacionais. Essa ausência não é acidental, mas uma escolha calculada para proteger a imagem da dinastia de elementos considerados 'manchados'.

As Origens Estrangeiras e o Estigma Social no Songbun

A discreta postura oficial em relação a Ko Yong-hui tem raízes profundas em suas origens familiares e sociais. Nascida em Osaka, Japão, em 1952, seus pais eram nativos da ilha de Jeju, hoje território sul-coreano. A família de Ko fazia parte dos 'coreanos zainichi', imigrantes que se estabeleceram no Japão durante o domínio colonial japonês (1910-1945). Embora muitos deles tenham retornado à Coreia do Norte sob a campanha 'Paraíso na Terra', prometendo uma vida idílica, eram frequentemente rotulados como 'jjaepo', um termo depreciativo para aqueles vistos como contaminados por ideologias estrangeiras perigosas. Na rígida classificação social da Coreia do Norte, conhecida como 'songbun', os zainichi são enquadrados na 'classe oscilante', uma posição intermediária entre a classe central e a hostil, sujeita a intensa vigilância estatal e com acesso restrito a oportunidades de ascensão. Este sistema de castas, onde a 'culpa por associação' é uma realidade, implicava que as origens de Ko representavam uma vulnerabilidade significativa para a pureza ideológica da linhagem.

A 'Cinderela Secreta' de Kim Jong-il

Apesar de suas origens desafiadoras, Ko Yong-hui, que emigrou para a Coreia do Norte com sua família por volta dos 10 anos, conseguiu ascender a uma posição incomum. Ela escapou da pobreza que afligia muitos de seus compatriotas 'zainichi' ao integrar a Mansudae Art Troupe, um grupo de elite. Sua beleza natural e habilidades de dança chamaram a atenção do então líder Kim Jong-il, que já era casado com Kim Young-sook, filha de um oficial militar de alto escalão. Embora nunca tenha se casado oficialmente com Kim Jong-il, vivendo como sua parceira não reconhecida pelo regime, ela desfrutou de uma 'vida de Cinderela', conforme relatado por biógrafos. Testemunhos sugerem que Kim Jong-il se apaixonou profundamente por Ko, que, por sua vez, demonstrou interesse pela política. No entanto, sua união e os três filhos que tiveram juntos, incluindo Kim Jong-un, permaneceram longe dos holofotes da capital, confinados a uma residência em Wonsan, a 210 km de Pyongyang.

O Segredo da Sucessão e o Estigma da Ilegitimidade

A condição de Kim Jong-un como filho de uma parceira não-oficial e com origens 'zainichi' contrariava frontalmente a imagem de pureza exigida pela 'linhagem Paektu'. Em uma sociedade profundamente hierárquica e ainda impregnada de crenças confucionistas, como a Coreia do Norte, o estigma de ser um 'filho ilegítimo' ou descendente de um 'jjaepo' era inimaginável para um líder supremo. Esse fato, aliado à necessidade de preservar a sacralidade da dinastia, tornou a ocultação da identidade de Ko Yong-hui uma questão de segurança nacional e legitimação do regime. Muitos especialistas acreditam que, apesar de sua invisibilidade pública, Ko desempenhou um papel fundamental nos bastidores, influenciando Kim Jong-il e ajudando a pavimentar o caminho para que seu filho, Kim Jong-un, fosse escolhido como sucessor. A ausência de sua mãe no discurso oficial é, portanto, um reflexo do rigor com que o regime protege sua narrativa, garantindo que a imagem de seu líder permaneça imaculada aos olhos de seu povo.

A Influência Silenciosa por Trás do Trono

Apesar de sua reclusão em Wonsan, longe da capital e da esposa oficial de Kim Jong-il, Ko Yong-hui era mais do que uma figura decorativa. Relatos indicam seu crescente envolvimento e interesse pela política interna. Essa proximidade com o poder, combinada com as suposições de que ela teria defendido ativamente a ascensão de seu filho ao poder, sugere uma influência significativa nos bastidores, uma força silenciosa que moldou a sucessão. Sua origem 'zainichi' e o fato de ser uma 'amante' eram elementos que o regime não poderia tolerar em sua história oficial, mas sua presença privada foi instrumental para a consolidação da terceira geração da dinastia Kim. O segredo em torno de Ko Yong-hui, portanto, não é apenas sobre o passado, mas sobre a manutenção do poder e da legitimidade no presente.

Conclusão: O Preço da Legitimidade Dinástica

O mistério que envolve Ko Yong-hui, a mãe de Kim Jong-un, transcende a curiosidade biográfica; é uma peça central na engenharia da legitimidade do regime norte-coreano. Sua condição de 'coreana zainichi' com origens na ilha de Jeju e seu relacionamento não oficial com Kim Jong-il representavam uma 'mancha' inaceitável para a sagrada 'linhagem do Monte Paektu'. A eliminação de Ko Yong-hui da memória pública e da narrativa oficial é um testemunho da profundidade com que a Coreia do Norte manipula a história para sustentar sua ditadura hereditária. Ao apagar sua mãe dos registros públicos, Kim Jong-un não apenas protege sua própria imagem de qualquer mácula associada a origens 'impuras' ou 'ilegitimidade', mas também reforça a narrativa de uma dinastia perfeita e divinamente ordenada. O silêncio sobre Ko Yong-hui é, em última análise, o preço pago para solidificar o poder e a continuidade da família Kim na nação mais isolada do mundo.

Fonte: https://g1.globo.com

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