A Colômbia se prepara para um momento decisivo em sua história política, com o primeiro turno das eleições presidenciais agendado para o próximo domingo. Um total de onze postulantes busca a preferência do eleitorado, mas o cenário político atual aponta para três figuras de destaque que polarizam as pesquisas de opinião: um influente filósofo e senador, um advogado com um estilo que remete ao presidente de El Salvador, e a neta de um ex-presidente que se tornou uma surpresa na reta final da campanha.
Este pleito é de suma importância, pois definirá o sucessor do atual presidente Gustavo Petro, no poder desde 2022. A Constituição colombiana, diferentemente de outros países da região, não permite a reeleição para o cargo máximo do Executivo. As eleições acontecem em um contexto de complexidade social e política, marcado por episódios de violência, incluindo atentados contra figuras públicas, e tensões diplomáticas com nações vizinhas, como o Equador, envolvido em operações contra o crime organizado.
Iván Cepeda: A Continuidade da Esquerda e o Legado da Paz
À frente nas intenções de voto, segundo as últimas pesquisas, está Iván Cepeda, o candidato endossado pelo presidente Gustavo Petro. Aos 63 anos, este senador e filósofo é um dos principais expoentes do partido de esquerda Pacto Histórico. Sua plataforma eleitoral é centrada na defesa da continuidade das políticas implementadas pela atual administração, reforçando o diálogo como principal via para a resolução de conflitos armados remanescentes com grupos guerrilheiros no país.
Cepeda ganhou notabilidade por seu papel fundamental na mediação das negociações de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que culminaram no histórico acordo de 2016. Embora o pacto tenha levado ao desarmamento da guerrilha principal, a persistência de grupos dissidentes continua a ser uma fonte de violência. Além de suas propostas de paz, o candidato defende o aumento do salário mínimo, a redução de benefícios para membros do Congresso e uma reforma agrária abrangente para promover a equidade social.
Sua trajetória também inclui um embate judicial com o ex-presidente Álvaro Uribe. Em 2012, Uribe acusou Cepeda de orquestrar um complô para associá-lo a grupos paramilitares. Anos depois, a Justiça colombiana validou a atuação parlamentar de Cepeda e investigou Uribe por suposta manipulação de testemunhas. Mais recentemente, o ex-presidente foi absolvido das acusações de suborno e fraude processual.
Abelardo de la Espriella: A Linha Dura e o Estilo 'Bukele'
Em segundo lugar nas pesquisas, o advogado Abelardo de la Espriella, de 47 anos, emerge como a principal figura da ultradireita colombiana, liderando o movimento 'Defensores da Pátria'. Conhecido por sua admiração a líderes como Donald Trump e Nayib Bukele – com quem compartilha certa semelhança física e um estilo comunicacional direto –, De la Espriella tem visto sua campanha ganhar fôlego na reta final.
Contrastando com a abordagem de diálogo de seu principal adversário, 'El Tigre', como é apelidado, promete uma ofensiva militar contundente para combater as guerrilhas, rejeitando qualquer negociação. Seu posicionamento também se estende à política externa, onde defende a saída da Colômbia de organismos internacionais como a ONU e a OEA, que, em sua visão, promovem agendas consideradas de esquerda. A campanha de De la Espriella foi, inclusive, marcada por tragédias, como o assassinato de dois de seus integrantes, e ele próprio denunciou um plano para assassiná-lo envolvendo a inteligência colombiana.
Além de sua postura política incisiva, Abelardo de la Espriella se destaca por uma marca pessoal multifacetada. Ele mantém um site, 'De la Espriella Style', onde comercializa produtos diversos, desde bebidas alcoólicas e livros de sua autoria, até músicas que ele próprio canta e roupas que ele mesmo promove. Sua trajetória não é isenta de polêmicas; em uma entrevista televisiva, fez declarações controversas sobre sua vida pessoal e enfrentou questionamentos por ter defendido o empresário Alex Saab, acusado de ser intermediário do regime venezuelano de Nicolás Maduro, antes de sua deportação para os Estados Unidos. O advogado afirma que a relação profissional com Saab se encerrou muito antes do surgimento das acusações.
Paloma Valencia: O Legado Familiar e a Luta por um Novo Rumo
Uma das grandes surpresas desta corrida eleitoral foi o expressivo crescimento da candidata de direita Paloma Valencia, representante do partido Centro Democrático. Aos 50 anos, a senadora, eleita desde 2014, carrega o peso de um sobrenome proeminente na política colombiana, sendo neta do ex-presidente Guillermo León Valencia, que governou o país na década de 1960. Sua ascensão nas pesquisas a posiciona como uma forte concorrente, e sua eventual vitória representaria um marco histórico, tornando-a a primeira mulher a presidir a Colômbia.
Valencia tem se focado em uma plataforma que busca reverter algumas das direções tomadas pelo atual governo, propondo alternativas para desafios econômicos e de segurança, com um discurso que apela aos setores que buscam uma mudança de rumo para o país. Sua campanha busca equilibrar a herança política de sua família com uma visão renovada para o futuro da nação.
Perspectivas para o Futuro Político da Colômbia
Com um cenário eleitoral tão fragmentado e candidatos que representam visões tão distintas para o futuro da Colômbia, o próximo domingo promete ser um dia de alta tensão e expectativa. Os eleitores terão a tarefa de escolher entre a continuidade das políticas de esquerda, uma guinada conservadora e militarista, ou a ascensão de uma figura que, embora alinhada à direita, representa uma nova geração e a possibilidade de uma liderança feminina inédita. A decisão moldará não apenas a política interna, mas também o posicionamento do país no cenário regional e global, diante de desafios persistentes como a violência, a estabilidade econômica e as relações internacionais.
Fonte: https://g1.globo.com