Em um movimento significativo que redefine a abordagem global contra o crime organizado transnacional, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como “terroristas globais especialmente designados” e “organizações terroristas estrangeiras”. Esta decisão eleva o status jurídico das maiores facções criminosas brasileiras ao mesmo patamar de grupos que já foram alvo de intensas intervenções por parte de Washington na América Latina, como os notórios cartéis de Sinaloa e Jalisco Nova Geração no México, e a gangue Tren de Aragua na Venezuela.
A classificação, que entra em vigor com efeito imediato, não é meramente simbólica. Historicamente, a inclusão na lista de terrorismo pela Casa Branca tem sido um prenúncio para o desdobramento de uma gama de ações que podem variar desde pressão diplomática e bloqueios financeiros até operações de inteligência e, em casos extremos, uso direto de força militar. A análise dos precedentes recentes no continente revela as diversas formas como essa designação pode moldar a política externa e de segurança dos EUA, agora expandindo seu foco para o Brasil.
O Enquadramento Jurídico e Suas Ferramentas de Combate
A designação como “terroristas globais especialmente designados” (SDGT) e “organizações terroristas estrangeiras” (FTO) concede ao governo dos EUA um leque expandido de ferramentas legais e financeiras para combater o PCC e o CV. Este status permite o congelamento de quaisquer bens das facções sob jurisdição americana, a proibição de transações com essas entidades, e a criminalização do apoio material a elas. Além disso, a designação facilita a ação contra indivíduos ou redes que colaborem com esses grupos, seja financeiramente, logisticamente ou de qualquer outra forma.
Ao comparar PCC e CV com organizações como o Cartel de Sinaloa, o CJNG e o Tren de Aragua, os Estados Unidos sinalizam uma percepção de que o escopo e o impacto dessas facções brasileiras extrapolam as fronteiras nacionais, representando uma ameaça transnacional comparável a grupos anteriormente visados. Essa equiparação jurídica abre caminho para o uso de estratégias testadas em outros cenários, adaptadas à complexidade das redes criminosas brasileiras.
O Precedente Venezuelano: Intervenção Militar e Captura de Líderes
O caso da Venezuela ilustra o ápice da escalada de uma designação de terrorismo. Antes mesmo de uma ação militar direta, o Departamento de Justiça dos EUA já havia indiciado o então presidente Nicolás Maduro por “narcoterrorismo”, alegando conluio de seu governo com cartéis de drogas. Esta acusação foi fundamental para a construção da justificativa jurídica e política que viria a culminar em uma invasão armada.
A estratégia americana no país vizinho progrediu de sanções econômicas severas a um bloqueio naval, focado no combate ao tráfico internacional. Em 3 de janeiro de 2026, a operação militar em Caracas, conduzida pela Força Delta dos EUA e apoiada por ataques aéreos, resultou na captura de Nicolás Maduro dentro de uma fortaleza militar. Essa ação foi apresentada como um desdobramento direto do enquadramento do regime bolivariano como uma ameaça terrorista transnacional, deslegitimando as instituições venezuelanas perante a comunidade internacional e autorizando o uso de força para “restaurar a ordem” e levar o ex-presidente a julgamento por conspiração e tráfico.
A Estratégia Mexicana: Guerra Secreta e Desarticulação de Redes
No México, a designação de cartéis como Sinaloa, Jalisco Nova Geração e a Nova Família Michoacana como organizações terroristas estrangeiras pavimentou o caminho para uma ofensiva diferente, caracterizada por uma combinação de pressão diplomática e extensas incursões de inteligência. A abordagem focou na desarticulação das redes criminosas, indo além da simples captura de líderes de alto escalão.
Relatos da imprensa norte-americana confirmaram que, desde 2025, a Agência Central de Inteligência (CIA) está engajada em uma “guerra secreta” em solo mexicano. Esta intervenção de bastidores tem como meta o desmantelamento das sofisticadas redes financeiras e logísticas dos cartéis, utilizando táticas e estratégias semelhantes às empregadas pelos EUA em missões antiterrorismo no Oriente Médio. A captura e morte de Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, líder do CJNG e um dos homens mais procurados do mundo, exemplificou a eficácia da colaboração de inteligência, com o governo mexicano confirmando o apoio estratégico dos EUA na operação.
Implicações Futuras para o PCC e o CV
A designação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos EUA marca um ponto de inflexão na luta contra o crime organizado no Brasil e na região. Com base nos precedentes de Venezuela e México, é plausível antecipar que Washington agora disporá de maior flexibilidade para direcionar uma gama mais ampla de ações contra essas facções. Isso pode incluir desde a intensificação da cooperação em inteligência com as autoridades brasileiras, visando desmantelar redes financeiras e logísticas, até a imposição de sanções mais severas contra indivíduos e empresas ligadas a esses grupos.
Embora a natureza específica das futuras intervenções ainda esteja por ser definida, a lição dos casos anteriores é clara: a classificação de terrorismo oferece um substrato jurídico para justificar ações robustas e de longo alcance. Para o PCC e o CV, isso significa que suas operações internacionais e suas fontes de financiamento podem se tornar alvos prioritários de uma campanha multinacional mais agressiva e com um arsenal de ferramentas nunca antes empregado com tal intensidade contra o crime organizado brasileiro.
Fonte: https://g1.globo.com