Há mais de duas décadas, o 'Calendario Romano' se estabeleceu como um dos souvenirs mais cobiçados nas vibrantes ruas de Roma, exibindo closes de jovens atraentes em trajes sacerdotais. Contudo, uma recente reportagem do jornal romano *La Repubblica* lançou luz sobre uma curiosa verdade: a maioria dos modelos que estampam as páginas deste popular almanaque, incluindo seu rosto mais icônico, nunca pisou em um seminário. Essa revelação transformou o que era considerado uma divertida lembrança em um debate nacional, questionando a percepção pública e a intenção artística por trás da obra.
O Rosto Ícone: Giovanni Galizia e a Origem de um Sorriso Enigmático
Giovanni Galizia, hoje com 39 anos e atuando como comissário de bordo, é a figura central dessa narrativa. Desde os 17 anos, seu rosto adorna a capa do 'Calendario Romano' em muitas de suas 23 edições, em uma foto que se tornou atemporal. Nela, Galizia ostenta um sorriso enigmático, comparado ao da Mona Lisa, enquanto veste um colarinho clerical diante de uma parede de granito em Palermo, sua cidade natal. Ele confessou à Associated Press que o sorriso, na verdade, era de pura timidez e constrangimento, pois amigos o observavam e gargalhavam durante a sessão de fotos. Este registro, originalmente uma brincadeira sem maiores pretensões em sua vida, catapultou-o ao centro das atenções após a recente exposição na mídia.
Por Trás das Lentes: A Criação de Piero Pazzi e o Fenômeno de Vendas
A mente criativa por trás do 'Calendario Romano' é o fotógrafo Piero Pazzi. Amigos em comum apresentaram Galizia a Pazzi quando ele ainda era adolescente. O trabalho de Pazzi não se limita a este calendário; ele também é conhecido por um calendário com gondoleiros venezianos e por fundar museus dedicados à história dos gatos em Budapeste e Montenegro, evidenciando seu olhar singular. Oficialmente denominado 'Calendario Romano', cada edição apresenta 12 retratos em preto e branco de homens, geralmente trajados com vestes clericais, com muitas das imagens sendo reaproveitadas anualmente. Galizia afirmou conhecer apenas um dos outros modelos fotografados, um francês que, assim como ele, não era sacerdote. Em contrapartida, Pazzi defende que pelo menos um terço dos homens do calendário de 2027, já lançado, são realmente padres, embora não tenha fornecido detalhes. O calendário é comercializado por cerca de 8 euros (aproximadamente R$ 50) em lojas de souvenirs próximas ao Vaticano e no centro histórico de Roma, com estimativas de vendas de milhares de exemplares por ano. Enquanto Pazzi recebe royalties, Galizia, que assinou uma autorização de uso de imagem na época, nunca pediu pagamento.
Arte, Provocação e a Percepção da Sensualidade
Para Galizia, as fotografias de homens vestidos como padres inserem-se em uma tradição artística, similar a atores que interpretam religiosos em séries de TV sem serem membros do clero. Ele descreve a proposta como uma 'certa provocação' na intersecção do sagrado e do profano, criando uma dissonância ao associar o universo eclesiástico a um jovem de 'rosto fresco'. Ambos, Galizia e Pazzi, admitem surpresa com a conotação sensual que o calendário adquiriu. Galizia argumenta que existe uma tendência contemporânea de confundir beleza com sensualidade, especialmente em um mundo altamente sexualizado. Contudo, ele encara a interpretação 'sexy' como um elogio, destacando que 'conseguir ser sexy usando um colarinho clerical não é pouca coisa'.
Repercussão e a Surpreendente Aprovação do Clero
Apesar da ausência de vínculo com o Vaticano – a Santa Sé, inclusive, recusou-se a comentar sobre o assunto, embora Pazzi inclua informações sobre ela no calendário –, o 'Calendario Romano' goza de uma notoriedade internacional. Um padre sul-coreano, que se apresentou informalmente como Padre Domenico, revelou que o calendário é bastante conhecido em seu país, especialmente entre os jovens, que o veem com humor. Segundo ele, a imagem dos padres, por vezes percebida como rígida e distante, é humanizada pelo almanaque, mostrando que o clero também pode ser divertido e próximo. Essa perspectiva sugere que, para alguns, o calendário transcende a polêmica da 'falsa representação' para cumprir um papel inesperado de ponte cultural e humorística. Galizia, por sua vez, nunca foi abordado publicamente devido à foto, embora seus primos tenham presenteado sua avó com o calendário, gerando risadas na família.
O 'Calendario Romano' permanece, assim, um fenômeno multifacetado: um sucesso comercial, um objeto de discussão artística e cultural, e uma fonte de entretenimento que desafia percepções. Sua história, agora mais transparente, continua a intrigar e divertir, provando que nem sempre a imagem revela a totalidade da verdade, mas pode, ainda assim, gerar uma conexão genuína, seja ela através do riso ou da contemplação sobre a beleza em suas diversas formas.
Fonte: https://g1.globo.com