O mundo da gastronomia sustentável e do ativismo social perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas. Carlo Petrini, gastrônomo, jornalista e escritor italiano, fundador do aclamado movimento Slow Food, faleceu nesta quinta-feira (21), aos 76 anos, em Bra, na região de Piemonte, Itália. A notícia foi confirmada pelo próprio Slow Food, organização que ele transformou em uma rede global dedicada à defesa de um sistema alimentar justo e ecologicamente responsável. Considerado um "Herói Europeu" e uma das personalidades capazes de "salvar o mundo", Petrini deixa um legado profundo na forma como pensamos e nos relacionamos com a comida.
A Semente da Mudança: A Gênese do Slow Food
Nascido em 1949, Carlo Petrini alcançou projeção internacional a partir de um ato de protesto em 1986. Sua manifestação contra a inauguração de uma filial do McDonald's na histórica Piazza di Spagna, em Roma, simbolizou um ponto de virada crucial. Esse evento deu origem à associação Arcigola, que mais tarde evoluiria para o Slow Food Itália. Três anos depois, em dezembro de 1989, a filosofia do movimento foi formalizada com a assinatura do Manifesto Slow Food em Paris, reunindo delegações de diversas partes do globo e consolidando as bases de uma nova visão alimentar.
Expansão Global e a Filosofia 'Bom, Limpo e Justo'
Petrini foi eleito presidente do movimento em 1989, liderando a organização por mais de três décadas, até 2022. Nesse período, ele defendeu ativamente a transição da governança para as novas gerações, passando o bastão para o ugandense Edward Mukiibi, mas permanecendo ativo no Conselho de Administração da entidade. Sob sua liderança visionária, o Slow Food floresceu, transformando-se em uma rede global vibrante, presente em mais de 160 países. A essência do movimento reside em sua filosofia do alimento "bom, limpo e justo", que preconiza a sustentabilidade ambiental, a preservação da identidade cultural e a garantia da justiça social. Entre os pilares que marcaram essa expansão estão o encontro internacional Terra Madre, estabelecido em 2004, as iniciativas das Hortas na África, a Arca do Gosto e as Fortalezas Slow Food (Slow Food Presidia), todas focadas em proteger a biodiversidade e promover a produção artesanal.
Além do Prato: Educação e Diálogo em Prol do Planeta
A influência de Petrini transcendeu o movimento Slow Food. Ele foi o idealizador e fundador da Universidade de Ciências Gastronômicas, em Pollenzo, Itália. Esta instituição pioneira tornou-se a primeira no mundo a adotar uma abordagem interdisciplinar para os estudos sobre alimentos. Como presidente da universidade, ele supervisionou a formação de aproximadamente 4.000 gastrônomos de cem países, e sua articulação foi fundamental para que o governo italiano reconhecesse oficialmente o curso de bacharelado na área em 2017.
Em 2017, em colaboração com o bispo de Verona, Monsenhor Domenico Pompili, Petrini fundou as Comunidades Laudato Si'. Essa rede, que hoje conta com cerca de 80 grupos locais, inspira-se na encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado com a "casa comum", unindo fé e ativismo ambiental. Seu diálogo com o pontífice resultou ainda no livro "Terrafutura" (2020), uma das muitas obras publicadas ao longo de sua vida, onde ele aprofundou debates sobre eco-gastronomia e os desafios prementes do planeta.
A Voz do Pensamento Crítico: Jornalismo e Legado Financeiro
Como jornalista, Petrini foi um colaborador assíduo de alguns dos mais prestigiados jornais italianos, como La Stampa, La Repubblica, Il Manifesto e Il Fatto Quotidiano. Sua escrita refletia seu compromisso com a reflexão crítica sobre a alimentação e a sociedade. Notavelmente, toda a receita gerada por suas atividades jornalísticas era reinvestida diretamente nos projetos do Slow Food e da Universidade de Ciências Gastronômicas, demonstrando um altruísmo inabalável e uma dedicação integral à causa que abraçou.
Reconhecimento Internacional: De Doutorados a Campeão da Terra
As contribuições de Carlo Petrini foram amplamente celebradas globalmente, com inúmeros reconhecimentos de entidades internacionais e instituições acadêmicas. Ele recebeu diversos doutorados e títulos honorários de universidades notórias em vários países, atestando seu impacto no pensamento e na prática gastronômica e ambiental. A Organização das Nações Unidas (ONU) também laureou sua atuação no desenvolvimento sustentável; em 2013, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente concedeu-lhe o prêmio Champions of the Earth (Campeões da Terra) na categoria "Inspiração e Ação", e em 2016, ele foi nomeado Embaixador Especial da FAO para o Fome Zero na Europa.
Sua singular capacidade de comunicação e o impacto social de suas iniciativas foram amplamente notados pela mídia global. A revista Time o designou como "Herói Europeu" em 2004, e em 2008, o jornal britânico The Guardian o incluiu como o único italiano em sua lista das "50 pessoas que poderiam salvar o mundo", sublinhando sua estatura como um líder de pensamento e ação em escala global.
O Eterno Semeador de Utopias
Em nota oficial, o Slow Food expressou profundo pesar pela perda de seu fundador, relembrando uma de suas frases mais icônicas: “Quem semeia utopia colhe realidade”. A organização reafirmou o compromisso de perpetuar seus ideais. "Sua energia, sua determinação e sua dedicação de uma vida inteira aos outros continuarão a ser uma força orientadora para todo o movimento e para todos aqueles que compartilharam da sua visão", afirmou o comunicado. Carlo Petrini deixa um legado indelével, um convite contínuo à reflexão sobre a alimentação e o planeta, inspirando gerações a buscar um futuro mais justo e sustentável.
Fonte: https://g1.globo.com