Um recém-inaugurado memorial em Pyongyang, Coreia do Norte, está se tornando um ponto focal de uma investigação da BBC que sugere que centenas, talvez milhares, de soldados norte-coreanos pereceram lutando ao lado das forças russas na Ucrânia. O monumento, que, segundo a agência estatal KCNA, atrai um 'fluxo interminável de pessoas', incluindo crianças, pode ser a primeira pista concreta sobre o número de baixas, um dado rigidamente oculto pelo regime. As estimativas, baseadas em análises de imagens de satélite e fotografias oficiais, apontam para um número superior a 2.300 mortos, oferecendo uma janela rara para o envolvimento de Pyongyang no conflito.
O Monumento Memorial dos Feitos de Combate e seu Propósito Oficial
Localizado no distrito de Hwasong, em Pyongyang, o grandioso Museu Memorial dos Feitos de Combate em Operações Militares no Exterior foi inaugurado em 26 de abril, após um rápido período de construção iniciado no último ano. A obra, que se estende por 52 mil metros quadrados e inclui um prédio principal, um cemitério e duas imponentes paredes gravadas, teve sua concepção ordenada pelo líder Kim Jong Un. De acordo com a KCNA, o museu tem como objetivo perpetuar a 'bravura incomparável' dos soldados norte-coreanos que teriam atuado para 'libertar a região de Kursk', na Rússia, destacando a retórica oficial por trás da intervenção.
A Revelação Através dos Nomes Gravados
A investigação da BBC focou nas duas paredes de 30 metros de comprimento presentes no memorial, que foram meticulosamente gravadas com nomes. Uma análise detalhada das imagens divulgadas pela KCNA indica que cada parede é dividida em aproximadamente 14 seções. Destas, nove contêm inscrições, cada uma organizada em cerca de 16 colunas. Fotos de perto da parede leste revelam que cada coluna exibe oito nomes de soldados falecidos. Com base nessa estrutura, o cálculo da BBC estima que cada parede contaria com 1.152 nomes, totalizando impressionantes 2.304 nomes de combatentes no conjunto das duas estruturas. Songhak Chung, pesquisador do Instituto Coreano de Estratégia de Segurança, corrobora essa observação, afirmando que a densidade do texto e a área de superfície sugerem um registro de 'vários milhares' de indivíduos.
Contexto da Intervenção e o Pacto de Defesa Mútua
A presença de soldados norte-coreanos no campo de batalha ucraniano e russo é intrinsecamente ligada ao pacto de defesa mútua assinado entre Coreia do Norte e Rússia em junho de 2024. Dois meses após a formalização do acordo, a Ucrânia lançou uma ofensiva surpresa em Kursk, reconquistando uma significativa porção de território russo. Kim Jin-mu, do Instituto Coreano de Análises de Defesa, sugere que este cenário pode ter motivado o envio prioritário de tropas norte-coreanas para Kursk, em detrimento de outras frentes. Acredita-se amplamente que Pyongyang tenha recebido contrapartidas substanciais, como alimentos, recursos financeiros e assistência técnica de Moscou, em troca do envio de seus soldados para a guerra. O líder Kim Jong Un já havia publicamente honrado os combatentes que sucumbiram no conflito, ressaltando a importância estratégica dessa aliança para o regime.
Estimativas de Baixas e Outras Pistas Mortuárias
Além dos nomes gravados nas paredes, outras evidências presentes no complexo memorial reforçam as estimativas de baixas. Imagens de satélite recentes, capturadas no início de abril e fornecidas pela SI Analytics, revelam um cemitério com aproximadamente 140 túmulos de um lado e 138 do outro. O edifício principal, segundo Chung, parece funcionar como um columbário, um local destinado a abrigar urnas funerárias, com “paredes inteiras cheias de compartimentos de armazenamento com padrão de grade para restos mortais”. Essas observações complementam e corroboram os números do Serviço Nacional de Inteligência (NIS) da Coreia do Sul, que, em relatórios anteriores, indicou que cerca de 2 mil soldados norte-coreanos foram mortos e outros 2,7 mil feridos. Em uma atualização mais recente, o NIS reportou em fevereiro deste ano que, dos 11 mil militares enviados à Rússia, aproximadamente 6 mil haviam sido mortos ou feridos, ressaltando a magnitude das perdas norte-coreanas na guerra.
Conclusão: Um Custo Humano Revelado em Meio ao Segredo
O Memorial dos Feitos de Combate em Operações Militares no Exterior, embora construído com a finalidade de glorificar os feitos de guerra, involuntariamente se transformou em um registro quase transparente das perdas humanas da Coreia do Norte em um conflito internacional. Em um regime notório por seu sigilo, o número de 2.304 nomes gravados oferece uma visão sem precedentes do sacrifício de vidas norte-coreanas em apoio à Rússia. Este monumento não é apenas uma homenagem aos mortos; ele serve como um testemunho silencioso do aprofundamento da aliança entre Pyongyang e Moscou e das complexas ramificações geopolíticas que se estendem até os campos de batalha da Ucrânia, lançando luz sobre o custo humano de uma guerra distante.
Fonte: https://g1.globo.com