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Acervo Histórico: Negativos de Vidro Centenários Retornam ao Museu Nacional

© Tomaz Silva/Agência Brasil

O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, celebra um marco significativo em sua jornada de reconstrução e recomposição de memória, após o trágico incêndio de 2018. Um conjunto valioso de negativos fotográficos em vidro, que havia sido preservado por mais de um século pela Fundação Biblioteca Nacional, foi oficialmente reintegrado ao seu acervo. Este retorno não apenas resgata artefatos de imenso valor histórico e científico, mas também simboliza um reencontro com fragmentos cruciais da trajetória da ciência e da cultura brasileira.

Um Legado Preservado por Mais de um Século

Os negativos que agora voltam ao Museu Nacional possuem uma história rica e singular. Eles foram originalmente empregados pelo renomado antropólogo Edgard Roquette-Pinto durante uma conferência realizada na Biblioteca Nacional em 1913. Posteriormente, as imagens foram reproduzidas nos anais da instituição, e o material permaneceu sob a guarda da Biblioteca como recurso de apoio por mais de cem anos. Essa preservação ininterrupta em uma instituição irmã garantiu que as chapas fotográficas, que funcionavam como os 'moldes' originais para a criação de fotografias em papel, sobrevivessem ao tempo e aos infortúnios, incluindo a perda do acervo fotográfico semelhante do próprio Museu Nacional no incêndio.

Tesouros Visuais da Ciência e da Cultura Brasileira

Ao todo, oito negativos de vidro e uma lanterna slide compõem este conjunto repatriado. As imagens capturam uma diversidade impressionante de temas, desde ricas representações de culturas indígenas até elementos da natureza e espécimes diretamente associados à pesquisa científica do início do século XX. Entre os negativos, destacam-se títulos como “Desenhos simbólicos dos índios Bakairis, segundo Von den Steinen”, “Zoolito dos Sambaquis de Santa Catarina”, “Índios Mauhá – viagem filosófica, de Alexandre Rodrigues Ferreira”, “Cephalopterus ornatus”, “Maloca dos índios Curutús do Rio Negro”, “Tartaruga sp.”, “K. von den Steinen e seus companheiros da Expedição Alemã, de 1884”, “Iararaca dos Parecis” e “Cabeça do último índio Cambeba (Deformação simétrica alongada)”. Cada peça oferece uma janela única para o conhecimento e as expedições da época.

Fortalecendo a Memória Científica em Reconstrução

A restituição desses registros visuais representa um marco de extrema importância para o Museu Nacional/UFRJ. Eles agora integram a prestigiosa coleção da Seção de Memória e Arquivo (Semear), contribuindo diretamente para o fortalecimento da preservação da memória científica e para o desenvolvimento de futuras pesquisas. O diretor do Museu Nacional/UFRJ, Ronaldo Fernandes, enfatiza que o diálogo e a cooperação entre as instituições são cruciais para a recomposição do acervo e a preservação do patrimônio. Ele ressalta que a incorporação desses negativos em vidro “simboliza a força dessa cooperação e o compromisso compartilhado com a preservação de um patrimônio de enorme relevância histórica, científica e cultural para o Brasil”.

O Trabalho de Mediação e Identificação Especializada

A concretização da devolução foi resultado de um esforço meticuloso de mediação, liderado por Jorge Dias, chefe da Seção de Memória e Arquivo do Semear. Dias recebeu a informação sobre a existência dos negativos na Fundação Biblioteca Nacional e prontamente articulou o processo. A identificação e análise das imagens foram realizadas por uma equipe técnica da Semear, que contou com a expertise do historiador Gustavo Alves Cardoso Moreira e da conservadora-restauradora Ana Luiza Castro do Amaral, chefe do Laboratório Central de Conservação e Restauro. Este grupo especializado estabeleceu a fundamental associação entre os negativos preservados pela Biblioteca Nacional e a coleção histórica de pranchas e antigos negativos em vidro que, infelizmente, o Museu Nacional perdeu no incêndio de 2018.

Para Jorge Dias, este retorno transcende a mera recuperação de objetos; é um “reencontro do Museu Nacional com fragmentos fundamentais de sua própria história científica e institucional”. Ele destaca que “cada negativo preservado nesses vidros carrega não apenas registros visuais, mas também memórias de pesquisa, de encontros interculturais e de práticas acadêmicas que ajudaram a construir a trajetória da ciência no Brasil”. A chegada dessas peças é, portanto, um passo vital na reconstrução e na continuidade da missão do Museu de salvaguardar e difundir o conhecimento.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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