Em sua primeira aparição na televisão americana desde o início do conflito com o Irã, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, concedeu uma entrevista abrangente ao programa '60 Minutes' da CBS. Durante a conversa, que marca a 11ª semana do embate, Netanyahu abordou a evolução estratégica da guerra, a ameaça nuclear iraniana, a luta contra grupos paramilitares aliados de Teerã e a complexa dinâmica das relações internacionais, incluindo o futuro da ajuda americana a Israel e a percepção global do país.
O Estreito de Ormuz: Uma Compreensão Estratégica em Desenvolvimento
Netanyahu revelou que Israel não antecipou a magnitude total da crise no Estreito de Ormuz no estágio inicial da guerra contra o Irã. A plena dimensão estratégica da região, crucial para o transporte global de petróleo e gás, só foi compreendida à medida que os combates se intensificavam. Questionado sobre relatórios que sugeriam a crença de oficiais israelenses de que o Irã estaria demasiado fragilizado para bloquear a passagem, o premiê reiterou que o risco e a complexidade de Ormuz se tornaram evidentes no decorrer do conflito. Ele reconheceu as limitações das análises pré-guerra, enfatizando que nenhuma parte envolvida possuía uma previsão perfeita dos desdobramentos.
A Ameaça Nuclear Iraniana e a Possibilidade de Ação Direta
A entrevista destacou a persistente preocupação de Israel e dos Estados Unidos com o programa nuclear iraniano. Netanyahu afirmou que o Irã ainda possui urânio enriquecido, instalações nucleares ativas e capacidade de desenvolver mísseis balísticos. Ele enfatizou a necessidade de 'remover' o material nuclear e 'desmantelar' as instalações de enriquecimento, sugerindo a possibilidade de uma ação física direta para alcançar esse objetivo. O primeiro-ministro chegou a mencionar a disposição do ex-presidente americano Donald Trump para uma intervenção, afirmando que Trump teria expressado: 'Eu quero entrar lá', e que a ação poderia ser realizada fisicamente.
Combate aos Aliados Regionais e o Futuro dos Conflitos
Netanyahu indicou que, mesmo com um eventual acordo entre Washington e Teerã, o conflito pode se estender a outras frentes. Israel pretende continuar suas operações contra o Hezbollah no Líbano. O premiê acusou o Irã de tentar condicionar qualquer cessar-fogo no Golfo à interrupção das ações israelenses contra o grupo libanês. Ele expressou a convicção de que um enfraquecimento ou a eventual queda do regime iraniano poderia desestabilizar toda a sua rede de aliados na região, incluindo o Hezbollah, o Hamas e os Houthis, levando ao colapso dessa aliança.
Novas Alianças Estratégicas e Desafios Geopolíticos
A entrevista também trouxe à tona a evolução das relações entre Israel e os países árabes. Netanyahu observou um crescente interesse de governos da região em aprofundar alianças estratégicas com Israel, especialmente após o início do conflito. Essas conversas, segundo ele, abrangem áreas como energia, inteligência artificial e tecnologia, marcando uma 'expansão e aprofundamento de acordos' que eram impensáveis anteriormente. Por outro lado, o premiê acusou a China de fornecer componentes para a fabricação de mísseis iranianos, embora não tenha apresentado provas detalhadas.
Ajuda Americana e a Batalha pela Imagem Internacional de Israel
Um ponto surpreendente da entrevista foi a defesa de Netanyahu por uma redução gradual da ajuda financeira militar dos Estados Unidos a Israel, com o objetivo de zerar esse apoio anualmente de US$ 3,8 bilhões ao longo da próxima década. Além disso, o primeiro-ministro reconheceu o desgaste na imagem internacional de Israel desde o início da guerra, atribuindo-o ao impacto das redes sociais e à manipulação de plataformas digitais por outros países. Ele citou uma pesquisa do Pew Research Center que indica que 60% dos adultos americanos têm uma visão desfavorável de Israel, um aumento significativo em quatro anos, e admitiu que Israel 'não se saiu bem' na 'guerra de propaganda'.
As declarações de Netanyahu no programa '60 Minutes' sublinham a complexidade dos desafios enfrentados por Israel, desde a gestão de crises estratégicas e a contenção de ameaças nucleares até a reformulação de alianças e a luta por sua percepção global. A entrevista oferece um panorama detalhado da visão do líder israelense sobre um conflito que, segundo ele, 'não acabou', e sobre as estratégias multifacetadas necessárias para garantir a segurança e o futuro de Israel na volátil paisagem do Oriente Médio.
Fonte: https://g1.globo.com