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Investigação da CNN Expõe Rede Global de Compartilhamento de Vídeos de Mulheres Dopadas e Violentadas

G1

Uma minuciosa investigação jornalística conduzida pela CNN revelou a existência de uma sofisticada e perturbadora rede internacional. Homens, agindo em fóruns, grupos privados e sites pornográficos, compartilham vídeos e fotos de mulheres que foram drogadas, sedadas ou se tornaram inconscientes, sendo filmadas e violentadas sem seu conhecimento ou consentimento. Este caso alarmante ressoa com o depoimento de Gisèle Pelicot, uma francesa que se tornou símbolo da luta contra crimes sexuais, e acende um novo alerta para a natureza desses agressores, que se mostram como indivíduos comuns, organizados digitalmente, e não figuras isoladas.

A Organização Criminosa no Cenário Digital

A apuração da CNN, que teve como base o trabalho inicial das jornalistas alemãs Isabell Beer e Isabel Ströh, detalha a infraestrutura digital dessa rede. O material chocante circula livremente em plataformas variadas, incluindo fóruns especializados, grupos de chat privados e grandes portais pornográficos. Nesses espaços, os participantes não apenas distribuem conteúdo, mas também trocam técnicas de dopagem, estratégias para evadir a justiça e, ainda, encorajam uns aos outros na prática desses crimes. Essa dinâmica de 'fraternidade masculina' e anonimato digital dificulta enormemente o desmantelamento da rede.

Um dos sites destacados pela investigação é o Motherless, uma plataforma pornográfica que, somente em fevereiro, registrou impressionantes 62 milhões de visitas. A CNN identificou que este site hospeda mais de vinte mil vídeos de mulheres dormindo ou sedadas, um tipo de conteúdo que acumula centenas de milhares de visualizações. A vasta dimensão desse fenômeno levanta questionamentos profundos sobre o número de mulheres em todo o mundo que podem ter sido vítimas de tais abusos sem jamais suspeitar.

Táticas de Dopagem e Submissão Química

A infiltração dos jornalistas em diversos grupos de chat revelou um cenário ainda mais sombrio: esses espaços são utilizados para a troca de informações detalhadas sobre como dopar parceiras sem que elas percebam, como filmá-las discretamente e como apagar rastros digitais. Mais alarmante, a investigação descobriu a existência de canais dedicados exclusivamente ao ensino de métodos de dopagem.

Um desses canais, identificado como 'Zzz', é um fórum onde homens compartilham abertamente informações sobre substâncias usadas para 'submissão química'. As discussões abordam desde as proporções adequadas das substâncias até os métodos de administração e os horários considerados 'mais eficazes'. Em uma das conversas interceptadas, um participante chega a afirmar que 'sua mulher não vai notar nada e não vai lembrar de nada', ao mesmo tempo em que oferece líquidos sedativos para venda, expondo a frieza e o planejamento por trás desses atos.

Vítimas Ocultas e o Alerta para Crimes Domésticos

A investigação não se limitou à descrição da rede, mas também deu voz a vítimas em diferentes países, confirmando que o caso de Gisèle Pelicot — uma mulher francesa violentada repetidamente pelo marido e por dezenas de outros homens — está longe de ser um incidente isolado. A CNN localizou mulheres abusadas de forma semelhante em várias regiões, ressaltando que os agressores são, muitas vezes, parceiros íntimos.

Entre os relatos, destaca-se o de Zoe Watts, de Devon, na Inglaterra, que descobriu com horror que seu marido, com quem foi casada por dezesseis anos, utilizava os próprios soníferos do filho do casal, triturando-os e adicionando-os ao seu chá para dopá-la e violentá-la inconsciente, tudo isso enquanto filmava os atos. Na Itália, uma mulher identificada como Valentina encontrou vídeos gravados pelo marido, seu companheiro por vinte anos, nos quais ela aparecia sendo agredida após ser drogada com soníferos e álcool, evidenciando a traição e a violência que podem ocorrer dentro do próprio lar.

Mobilização na França e a Urgência por Legislação Específica

Diante das revelações, duas proeminentes associações francesas — a Fondation des Femmes e a M’endors pas, esta última fundada por Caroline Darian, filha de Gisèle Pelicot — anunciaram a intenção de acionar a justiça francesa. Em um comunicado conjunto, as organizações enfatizam que esses 'delitos organizados, dentro de verdadeiras comunidades, incentivam e estruturam a violência', e pedem a abertura de uma investigação preliminar, dada a alta probabilidade de haver usuários e novas vítimas francesas envolvidas na rede.

As associações também solicitam a intervenção da Arcom, o órgão regulador do setor audiovisual na França, e da plataforma Pharos, responsável por denunciar conteúdos ilícitos na internet. O objetivo é implementar medidas eficazes de bloqueio e remoção de resultados de busca relacionados ao Motherless e a outros sites que hospedam vídeos de violações cometidas sob efeito de substâncias químicas. Além disso, defendem a criação de uma lei específica contra a violência sexista e sexual, ecoando um apelo de uma coalizão feminista de dois anos, sublinhando a urgência de políticas públicas capazes de combater crimes que proliferam no ambiente digital e se alimentam do anonimato.

Um Chamado à Ação Global

A amplitude e a complexidade dessas redes globais de crimes sexuais digitais expõem um desafio sem precedentes para as autoridades e para a sociedade em geral. A investigação da CNN ressalta que a luta contra essa forma de violência exige uma resposta multifacetada, que combine a vigilância digital com ações judiciais coordenadas internacionalmente e a criação de marcos legais robustos, aptos a enfrentar a natureza em constante evolução do crime organizado no ciberespaço. A conscientização e a solidariedade às vítimas são passos fundamentais para desmantelar esses sistemas e garantir que a justiça prevaleça.

Fonte: https://g1.globo.com

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