O Brasil emerge como um palco crucial na crescente rivalidade entre Estados Unidos e China pela hegemonia da inteligência artificial (IA). A decisão americana de priorizar o país, ao lado de Egito e Indonésia, para a exportação de "pacotes completos" de IA, intensifica uma disputa global que moldará o futuro tecnológico e geopolítico. Em um cenário onde Brasília simultaneamente negocia com Washington e estreita laços com Pequim em IA, a nação se vê diante de um complexo malabarismo diplomático e uma contradição estrutural que exige atenção imediata.
A Estratégia dos EUA: Alinhamento Tecnológico e Normativo
A iniciativa dos Estados Unidos, formalizada por ordem executiva, visa consolidar sua presença em mercados emergentes antes que a influência chinesa se torne irreversível. A abordagem americana transcende a mera venda de hardware, buscando exportar um ecossistema completo de IA, que inclui não apenas chips e software, mas também padrões técnicos, frameworks de governança, diretrizes para fluxo de dados e cooperação em segurança digital. O modelo é o de um "Technology Prosperity Deal", semelhante ao assinado com o Japão, transformando parceiros comerciais em parceiros normativos, integrados à órbita tecnológica americana.
Essa estratégia reflete o entendimento de Washington de que competir apenas no nível do chip não é suficiente. É fundamental oferecer e implantar a arquitetura normativa que acompanha a tecnologia, assegurando que os sistemas e infraestruturas operem sob o escopo regulatório e os valores dos EUA. Para o Brasil, figurar nessa lista prioritária significa ser convidado a um alinhamento tecnológico e político que terá implicações profundas, muito além das transações comerciais.
A Abordagem Chinesa e o Desafio da Dependência Estrutural
Em paralelo, a China adota uma estratégia de exportação de IA que analistas descrevem como "full-stack com condições embutidas", combinando hardware subsidiado, software de "caixa preta" e frameworks de governança que ecoam o modelo regulatório de Pequim. Ambas as propostas, a americana e a chinesa, trazem consigo um componente de política externa, ditando as regras do jogo para além da tecnologia em si.
Nesse cenário, o Brasil tenta equilibrar-se: enquanto o governo assinou um memorando de entendimento com a China para aprofundar a colaboração em IA, também avançou em conversas com Washington sobre seu programa de exportação, e recebeu vultosos anúncios de investimentos de empresas americanas como Microsoft, Amazon e Oracle em data centers. Essa dualidade, embora louvável do ponto de vista diplomático, gera uma contradição estrutural no âmbito tecnológico, dada a crescente dependência de infraestrutura digital estrangeira.
Além do Hardware: A Questão dos Modelos e da Soberania de Dados
A questão central da disputa não reside apenas em quem fornece os chips, mas em quem treinou os modelos de inteligência artificial. Os grandes sistemas de linguagem e tomada de decisão já empregados no setor público e privado brasileiro – em análise de crédito, triagem de políticas, recomendação de conteúdo e gestão de contratos – foram majoritariamente desenvolvidos por empresas americanas, seguindo padrões americanos e utilizando dados que refletem realidades dos EUA. Esse viés, não necessariamente malicioso, é intrínseco e tende a se aprofundar à medida que o Brasil sustenta sua infraestrutura cognitiva em servidores sujeitos ao CLOUD Act americano, uma lei que permite ao governo dos EUA requisitar dados armazenados por provedores americanos em qualquer jurisdição global.
O próprio debate regulatório brasileiro sobre IA espelha essa ambiguidade. O Senado inspira-se no AI Act europeu, buscando autonomia e criando um sistema de governança sob a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Contudo, a implementação prática dessa legislação depende fundamentalmente das corporações multinacionais americanas que controlam a infraestrutura subjacente. O Brasil pode criar suas leis, mas a soberania sobre os dados e a aplicação efetiva da regulamentação ficam comprometidas pela dependência da infraestrutura externa.
As Cartas na Manga do Brasil na Negociação Global
Apesar dos desafios, o Brasil detém ativos estratégicos que lhe conferem poder de barganha significativo. O país é o maior mercado de dados da América Latina, possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo – fator crucial para o funcionamento de data centers intensivos em energia – e demonstrou sua capacidade de inovação com o desenvolvimento do PIX, um dos sistemas de pagamentos digitais mais avançados globalmente.
Essa combinação de escala, energia e uma população conectada explica o interesse de Washington e Pequim em cortejar o Brasil como parceiro de IA. A potencial dependência tecnológica, portanto, não seria uma imposição, mas uma escolha deliberada. Isso sublinha a necessidade de um debate público robusto e sério para que o Brasil avalie, não apenas em termos comerciais, mas em termos de soberania, valores e direcionamento futuro, o que realmente está em jogo ao aceitar um "pacote completo" de IA que vem acompanhado de chips, modelos, padrões de governança e obrigações de compliance estrangeiras.
Fonte: https://g1.globo.com