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A Persa Oculta: Redescobrindo as Raízes Milenares da Nossa Vida Cotidiana

G1

Longe da percepção comum que frequentemente atribui as bases da civilização ocidental exclusivamente ao mundo greco-latino, a milenar cultura persa emerge como uma força arquitetônica fundamental, cujas contribuições permeiam inúmeros aspectos de nossa vida moderna. Estudiosos como o professor José Cutillas, especialista em Língua Persa e Cultura Iraniana da Universidade de Alicante, na Espanha, desafiam essa visão eurocêntrica, apontando para uma vasta gama de conceitos e inovações que floresceram no período persa pré-islâmico e que, hoje, consideramos intrínsecos ao nosso dia a dia.

Uma Influência Que Desafia o Tempo e a Geografia

Ao aprofundarmo-nos na estruturação política e administrativa das sociedades europeias, por exemplo, encontramos características nitidamente estabelecidas no gigantesco Império Persa Aquemênida, que floresceu entre 550 a.C. e 330 a.C. O historiador Tom Holland, por sua vez, eleva a importância da Pérsia, afirmando-a como, no mínimo, tão influente na história mundial quanto Atenas. Até mesmo Heródoto, o 'pai da história' no Ocidente, reconhecido por documentar as Guerras Persas, era admirador dessa civilização, registrando que os persas ensinavam três preceitos fundamentais: o domínio do arco, a arte de montar a cavalo e a importância de dizer a verdade. Para os antigos monarcas persas, a verdade não era apenas um valor, mas um pilar imerso em uma grande batalha cósmica contra a mentira, análoga à luz contra a escuridão ou o bem contra o mal.

Pilares da Espiritualidade e da Moralidade Ocidental

No campo religioso, o antigo Irã foi um berço de inovações milenares. Há cerca de 3,5 mil anos, Zaratustra fundou o zoroastrismo, introduzindo conceitos monoteístas que reverberariam por outras grandes religiões. Noções como a existência de anjos e profetas, e as ideias de céu e inferno, encontraram suas raízes ou foram influenciadas de forma seminal dentro do zoroastrismo. Essa contribuição demonstra a profundidade do pensamento persa na formação de estruturas éticas e espirituais que se tornariam universais, muito antes de serem popularizadas em contextos ocidentais.

Da Montaria Nômade ao Conforto Moderno: A Trajetória das Calças

Contrastando com a indumentária de saias e túnicas que dominava as civilizações antigas como os sumérios, assírios, gregos e romanos, os povos nômades da Eurásia foram os precursores de uma peça de vestuário revolucionária: as calças. Muitos especialistas apontam os citas, de origem iraniana, como essenciais em seu desenvolvimento, impulsionado pela necessidade prática de proteção e mobilidade para quem montava a cavalo em longas distâncias nas estepes. Por volta de 600 a.C., a arte grega já associava as calças a arqueiros estrangeiros, como citas, persas e amazonas, evidenciando sua adoção funcional. Os persas, por sua ascendência nômade e sua íntima relação com a equitação, desempenharam um papel crucial na propagação desta vestimenta.

O impacto da cultura persa sobre a moda não parou aí. A palavra persa `pā[y]ǧāme`, que significa 'cobertura de pernas', empreendeu uma jornada etimológica fascinante. Através do hindi, ela deu origem à palavra `pā[e]ǧāma`, que, por sua vez, influenciou o inglês e o francês como 'pyjamas'. A popularização do termo no sentido de 'roupa para dormir' ocorreu no final do século XIX, quando os britânicos observaram os habitantes da Índia vestindo blusas e calças folgadas. Desse contexto, a palavra 'pijama' chegou ao português e ao espanhol, completando a migração de uma ideia prática persa para um item de conforto global.

Desde a arquitetura de sistemas políticos complexos até as raízes de crenças espirituais profundas e a evolução de peças de vestuário que usamos diariamente, a civilização persa oferece um testemunho vibrante de sua genialidade. Suas inovações, muitas vezes assimiladas e recontextualizadas ao longo da história, continuam a moldar a tapeçaria da existência contemporânea, convidando-nos a revisitar e valorizar um legado que transcende fronteiras e eras, e que é, inegavelmente, parte intrínseca da nossa vida.

Fonte: https://g1.globo.com

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