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A Luta Que Não Cessa: Victória Grabois e a Busca Inabalável por Memória e Justiça na Ditadura

© Paulo Pinto/Agencia Brasil

Há 53 anos, a professora e ativista Victória Grabois viu sua vida ser marcada por uma perda irreparável: o assassinato de seu pai, Maurício Grabois, de seu irmão, André Grabois, e de seu marido, Gilberto Olímpio, todos em 1973, por agentes do Estado, na região da Serra do Araguaia. Militantes da guerrilha, eles combatiam o regime de exceção que silenciava o Brasil. Hoje, aos 82 anos, Victória mantém acesa a chama de uma luta incansável pela verdade e contra o esquecimento, ecoando sua determinação: “Não posso parar e faço tudo o que eu puder fazer para divulgar a memória e acabar com o silenciamento”.

Um Testemunho Vivo de Resistência e Resiliência

Apesar de reconhecer a pouca esperança em descobrir os detalhes exatos do que aconteceu com os corpos de seus familiares, Victória Grabois não se rende. Sua voz continua a clamar pela abertura dos arquivos militares, exigindo que o Estado revele "onde mataram, como mataram e quando mataram". Ela carrega a memória de Maurício Grabois, seu pai, com quem conviveu até os 29 anos, como a de um "grande homem" que "deu o seu bem maior, a vida, e levou o seu filho junto, em prol da liberdade do Brasil e da democracia", prováveis vítimas do dia 25 de dezembro de 1973. A ativista salienta a importância de Maurício como um homem de princípios, que a ensinou a ser uma pessoa digna, deixando um legado que a família transformou em livros a partir de seus escritos.

O Reconhecimento Oficial: Retificação de Certidões de Óbito

Em um passo significativo para a reparação histórica, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), em conjunto com a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, promoveu a entrega de mais 27 atestados de óbito retificados. O evento, realizado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, nesta terça-feira, incluiu o documento de Maurício Grabois, baiano e deputado constituinte em 1946. A retificação em seu atestado passa a indicar "ação violenta do Estado" como causa da morte, um reconhecimento formal da responsabilidade estatal. Victória, uma das fundadoras do movimento Tortura Nunca Mais, embora residente no Rio de Janeiro e ausente da cerimônia, reforça seu pedido para que o Estado vá além da correção documental, investigando exaustivamente os fatos que levaram às mortes de todas as vítimas da ditadura. Outros nomes icônicos, como Carlos Lamarca e Stuart Edgar Angel Jones, também tiveram suas certidões entregues às famílias, ao lado de Antônio Carlos Monteiro Teixeira e Célio de Castro Carvalho, entre outros.

A Memória Ativa: Homenagens e a Força da Arte

A luta pela memória é constantemente nutrida por iniciativas da sociedade civil. O movimento Tortura Nunca Mais, do qual Victória Grabois é uma das fundadoras, concedeu pelo 38º ano consecutivo a medalha “Chico Mendes”, criada em contraponto à “Medalha do Pacificador” do Exército. A edição deste ano homenageou figuras como o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves, desaparecido no Araguaia, e a socióloga Yara Yavelber, também assassinada por agentes estatais. A condecoração estendeu-se, ainda, a mães que perderam seus filhos devido à violência policial contemporânea, como Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste. Essa iniciativa sublinha a contínua relevância da defesa dos direitos humanos, conectando as violações do passado com as do presente. Victória Grabois também destaca o papel crucial de filmes brasileiros recentes, que concorreram ao Oscar e abordaram a ditadura, como ferramentas para "furar a bolha" social e aprofundar a compreensão pública sobre esse período. Ela observa um crescente interesse das escolas pela Guerrilha do Araguaia e outros fatos históricos, antes desconhecidos por muitos, evidenciando o poder da arte em educar e conscientizar.

Desafios Persistentes: Abertura de Arquivos e a Busca por Respostas Definitivas

A presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Gonzaga, enfatiza que a retificação das certidões de óbito representa a mais crucial das medidas de reparação adotadas até o momento. A meta é alcançar 434 retificações para todas as famílias, com a esperança de entregá-las em ocasiões solenes, acompanhadas de um pedido formal de desculpas do Estado. No entanto, Eugênia critica veementemente a contínua recusa das Forças Armadas em promover a abertura completa de seus arquivos. Apesar de muitos documentos já terem sido divulgados, ainda não há uma versão definitiva sobre as circunstâncias das mortes ou os locais de sepultamento dos corpos. Essa omissão representa uma "falha do sistema de justiça brasileiro" em prover as respostas definitivas que as famílias de mortos e desaparecidos políticos esperam e merecem, perpetuando uma dor que o tempo não conseguiu apagar.

A persistência de Victória Grabois e de tantas outras famílias, somada ao trabalho de instituições e movimentos de direitos humanos, reafirma a urgência de uma completa elucidação dos crimes da ditadura. A memória não é apenas um tributo aos que se foram, mas um pilar essencial para a construção de uma democracia robusta, que aprenda com seu passado para garantir que as violações nunca mais se repitam. A luta por verdade, memória e justiça, como a vida de Victória Grabois demonstra, é um imperativo moral e um compromisso contínuo com o futuro do Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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