Após 12 anos à frente da capital francesa, a prefeita Anne Hidalgo conclui seu mandato neste domingo (29), deixando para trás uma das mais audaciosas e abrangentes revoluções urbanas já vistas em uma metrópole. Sua gestão foi marcada por uma luta intransigente contra a hegemonia dos veículos motorizados em favor de pedestres e ciclistas, redefinindo não apenas o cenário físico da cidade, mas também a maneira como seus habitantes interagem com o espaço público. Essa transformação radical, que colocou Paris na contramão de muitas grandes cidades, culminou na vitória de seu aliado do Partido Socialista, Emmanuel Grégoire, validando a visão de uma cidade mais verde e humana.
Desmantelando a Era Automobilística
Uma das pedras angulares da administração de Hidalgo foi a estratégia para preparar Paris frente às mudanças climáticas, começando pela reformulação do transporte, um dos maiores emissores de poluentes. Desde 2015, a circulação de automóveis foi drasticamente reduzida, com mais de 200 ruas tendo seu tráfego completamente proibido, visando atingir 500 vias exclusivas para pedestres no futuro – o que representaria uma em cada dez ruas da cidade. Para desestimular o uso do carro, dezenas de milhares de vagas de estacionamento foram eliminadas nas vias públicas, muitas delas substituídas por áreas verdes. A velocidade máxima em grande parte da cidade também foi diminuída para 30 km/h, e medidas para desencorajar veículos pesados e poluentes foram implementadas, incluindo um aumento significativo no valor do estacionamento para SUVs, que pode chegar a 18 euros por hora na região central.
Prioridade à Mobilidade Ativa e Sustentável
Em paralelo à restrição dos automóveis, a prefeitura investiu massivamente em alternativas de transporte. A rede de ciclovias foi agressivamente expandida, especialmente durante a pandemia, transformando Paris em uma cidade cada vez mais "ciclável". Essa iniciativa não apenas ofereceu uma nova opção de deslocamento, mas também contribuiu para uma capital mais silenciosa e justa, conforme a visão da ex-prefeita. Um dos símbolos mais visíveis dessa mudança foi a requalificação das margens do Rio Sena, antes parcialmente ocupadas por ruas e avenidas, que foram convertidas em espaços exclusivos para pedestres. Essa transformação almejou criar uma "cidade humana", onde o caminhar, o pedalar e o lazer fossem prioritários, livres da poluição e do ruído do tráfego veicular.
Resultados Concretos: Ar Mais Limpo e Vida Urbana Transformada
Os esforços da gestão de Anne Hidalgo renderam frutos notáveis na qualidade de vida parisiense. Dados da prefeitura revelam que o tráfego de carros caiu mais de 60% desde 2002, enquanto o uso de bicicletas mais que triplicou. A melhora na qualidade do ar foi sensível: as emissões de dióxido de carbono registraram uma queda de 35%, e a presença de material particulado fino foi reduzida em 28% entre 2012 e 2022. No mesmo período, a poluição por dióxido de nitrogênio diminuiu impressionantes 40%, demonstrando o impacto direto das políticas de desincentivo ao carro e fomento à mobilidade sustentável.
A 'Cidade de 15 Minutos': Uma Visão de Proximidade
Por trás das políticas de transformação urbana, estava um conceito inovador: a "cidade de 15 minutos", idealizado pelo urbanista Carlos Moreno, que atuou como assessor científico da prefeitura a partir de 2015. A premissa é simples e revolucionária: garantir que todos os habitantes tenham acesso à maior parte de suas necessidades diárias – como trabalho, mercado, áreas verdes, escolas e serviços de saúde – a uma distância máxima de 15 minutos a pé ou de bicicleta. Em áreas onde isso não é totalmente viável, o transporte público de qualidade deve assegurar o acesso rápido aos destinos. Essa filosofia, inspirada em pensadores como Jane Jacobs, busca criar bairros mais autossuficientes e vibrantes, reduzindo a dependência do carro e promovendo uma vida urbana mais comunitária e menos estressante.
O mandato de Anne Hidalgo em Paris se encerra deixando um legado de transformação profunda, que não só reposicionou a capital francesa como um modelo global de sustentabilidade urbana, mas também demonstrou a viabilidade de priorizar a saúde ambiental e a qualidade de vida de seus cidadãos. A "Paris Pós-Carro" é uma realidade em evolução, um testemunho do poder da vontade política em reimaginar e redesenhar o espaço urbano para o futuro.