A nomeação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta um período de indefinição, com a possibilidade de sua sabatina no Senado Federal ser postergada para depois das eleições de outubro. O cenário é ditado por um crescente distanciamento entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), cuja relação complexa tem implicações diretas na agenda legislativa de Brasília.
As Condições para o Avanço da Indicação
Enquanto o Palácio do Planalto manifesta a intenção de resolver a questão da sabatina de Messias antes do pleito eleitoral, aliados de Alcolumbre são enfáticos ao afirmar que qualquer decisão sobre a data da votação está condicionada a uma reunião presencial entre os dois líderes. No entanto, este encontro é considerado improvável no momento, aprofundando o impasse que já dura meses.
O ambiente político que cerca Alcolumbre é marcado por uma reclusão intensificada, em meio a investigações envolvendo o Banco Master e a pressão pela instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar o caso. Para mitigar essa pressão e esvaziar a pauta de temas sensíveis, o presidente do Senado tem mantido a casa legislativa em modo semipresencial nas últimas semanas, priorizando projetos de menor impacto político.
Origem do Descontentamento e as Rupturas Iniciais
A escolha de Lula por Jorge Messias, anunciada em novembro do ano passado, foi a faísca que acendeu o atrito com Alcolumbre. O senador tinha a expectativa de emplacar um de seus aliados de primeira hora, o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), para a vaga aberta pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso no STF. A decisão do Planalto, que não atendeu a essa articulação, gerou um profundo descontentamento.
Diante da resistência e da campanha velada pela rejeição de Messias no Senado, o governo optou por não enviar a mensagem oficializando a indicação. Este movimento desencadeou a reação de Alcolumbre, que desmarcou a sabatina inicialmente prevista para 10 de dezembro. A estratégia do presidente do Senado era dar pouco tempo – apenas duas semanas – para Messias articular apoio junto aos gabinetes dos senadores, o que irritou o governo. A crise escalou ao ponto de Alcolumbre cortar relações com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), acusando-o de fazer campanha pela indicação de Messias, que chegou a trabalhar no gabinete do próprio senador.
Diálogos Frustrados e a Iniciativa Pendente
Em 7 de dezembro, buscando uma saída para o impasse, o presidente Lula recebeu na Granja do Torto os senadores Renan Calheiros (MDB-AL) e Eduardo Braga (MDB-AM), líder do MDB no Senado. Na presença de Jaques Wagner, os parlamentares aconselharam Lula que a questão de Messias somente seria resolvida por meio de um encontro pessoal com Davi Alcolumbre.
Dois dias depois da reunião, Lula ligou para Alcolumbre. Embora tenha agradecido a votação do Orçamento de 2026, a indicação de Messias não foi sequer mencionada, e um encontro presencial não foi agendado. O cenário de falta de diálogo direto sobre o tema persistiu. Em março, Lula e Alcolumbre voltaram a conversar, mas, mais uma vez, a sabatina ficou de fora da pauta e a reunião presencial não se concretizou. Alcolumbre, por sua vez, declarou publicamente que espera ser chamado pelo presidente, mas que a iniciativa para o encontro deve partir de Lula, enfatizando a reciprocidade na busca pelo diálogo.
Um Precedente de Longa Espera: A Indicação de André Mendonça
A situação de Jorge Messias evoca um precedente recente de longa espera no Senado: a sabatina de André Mendonça ao STF. Após ser indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Mendonça aguardou mais de quatro meses para ser votado no Senado. A demora foi atribuída a Alcolumbre, que, na época presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), levou 141 dias – quatro meses e 18 dias – para pautar a indicação, enquanto tentava convencer Bolsonaro a indicar o procurador-geral da República, Augusto Aras.
Agora, o roteiro se inverte: é o governo federal que segura o envio da mensagem oficial de indicação de Messias, temendo que o Senado, sob a liderança de Alcolumbre, rejeite o nome proposto por Lula. Desde a oficialização da intenção de indicar Messias, em 20 de novembro de 2023, já se passaram 119 dias – três meses e 27 dias –, aproximando-se da marca estabelecida pela espera de Mendonça, e consolidando a indicação de Messias como uma das mais demoradas da história recente do STF.
O futuro da indicação de Jorge Messias permanece incerto, refém de uma complexa teia de relações políticas, interesses eleitorais e estratégias legislativas. A ausência de um diálogo direto e resolutivo entre o Presidente da República e o Presidente do Senado aponta para uma possível prorrogação da decisão, estendendo a tensão sobre a composição do Supremo Tribunal Federal para além do calendário eleitoral.