O presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo, anunciou a elaboração do plano estratégico “Mato Grosso 2050”. A iniciativa ambiciosa busca orientar futuras políticas de Estado com foco no desenvolvimento regional e na diminuição das disparidades socioeconômicas. Uma das prioridades centrais do plano é o fortalecimento da agricultura familiar, um tema de grande urgência que foi debatido recentemente com representantes do setor, incluindo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Pública de Mato Grosso (Sinterp-MT), Gilmar Brunetto.
A discussão ressalta a importância vital dos pequenos produtores para a economia e o abastecimento do estado, confrontando o cenário de desafios enfrentados por essas comunidades. O plano propõe uma abordagem multifacetada para reverter a tendência de declínio da atividade, especialmente na Baixada Cuiabana, uma região que concentra um grande número de famílias de agricultores familiares.
O Plano 'Mato Grosso 2050': Metas e Urgências
O “Mato Grosso 2050” é concebido como um conjunto de políticas de Estado, com o objetivo primordial de endereçar questões estruturais que impactam o desenvolvimento. Entre as metas estabelecidas, destaca-se o foco na Baixada Cuiabana, uma região caracterizada pela extrema pobreza e pela carência de infraestrutura básica, como a energia elétrica trifásica, essencial para a viabilidade de muitos empreendimentos rurais. Sérgio Ricardo enfatiza a necessidade de um debate aprofundado que contemple a sustentabilidade dos negócios no campo, a disponibilidade de moradia digna, e o acesso garantido a energia e água.
A gravidade da situação foi sublinhada pelo conselheiro, que alertou para o risco iminente de colapso da agricultura familiar, um cenário que resultaria em aumento do desemprego e impactaria negativamente a sobrevivência e o desenvolvimento de todo o estado de Mato Grosso. A proposta de uma mesa técnica visa aprofundar essa discussão e buscar soluções eficazes para a crise.
Desafios Demográficos e Estruturais da Agricultura Familiar
Gilmar Brunetto, do Sinterp-MT, ofereceu uma perspectiva detalhada sobre os obstáculos enfrentados pelos cerca de 35 mil pequenos produtores na Baixada Cuiabana. Ele destacou o potencial da região para expandir a produção, melhorando o abastecimento interno do estado e, crucialmente, incentivando a permanência das novas gerações no campo. Contudo, Brunetto alertou para o preocupante envelhecimento da mão de obra, com a maioria dos agricultores ultrapassando os 65 anos, e questionou a ausência de programas estaduais que incentivem os jovens a retornar ou permanecer na atividade rural, enfatizando que a renda é um fator determinante para o engajamento das novas gerações.
Além disso, o representante do Sinterp-MT apontou para o sucateamento de importantes centros de pesquisa e a progressiva redução de investimentos em extensão rural. Essa desvalorização pode, segundo Brunetto, levar a uma concentração da agricultura nas mãos de poucos, replicando o modelo de grandes negócios e marginalizando ainda mais os pequenos produtores.
O Contraste Social e Econômico em Mato Grosso
O cenário de envelhecimento dos agricultores, a escassez de oportunidades e a baixa produtividade em certas áreas da Baixada Cuiabana contribuem para o êxodo rural, impulsionando o deslocamento de famílias para as periferias urbanas de Cuiabá e Várzea Grande. Sérgio Ricardo avaliou essa questão com seriedade, afirmando que a “miserabilidade da Baixada Cuiabana tem que ser encarada”, e que a região, lamentavelmente, tem gerado favelas.
Essa realidade expõe os profundos contrastes socioeconômicos de Mato Grosso. Enquanto o agronegócio ostenta altos níveis de produtividade e gera grande riqueza, coexiste com áreas de significativa pobreza. O conselheiro descreveu essa dualidade como a existência de 'vários estados dentro de Mato Grosso', onde convivem o 'estado do agronegócio', o 'estado dos minerais', e o 'estado da pobreza'.
Colaboração e Soluções Propostas para o Desenvolvimento Rural
Para a formulação das diretrizes do plano, Sérgio Ricardo garantiu uma abordagem colaborativa, reunindo o suporte de universidades, associações e representantes do setor produtivo. A intenção é consolidar um conjunto de ideias e propostas que serão apresentadas aos futuros gestores estaduais e municipais, visando assegurar investimentos robustos e consistentes na agricultura familiar.
Entre as alternativas discutidas nesta fase inicial, destacam-se a necessidade de investimentos em pesquisa e infraestrutura, além da implementação de sistemas de irrigação na região. A utilização estratégica da água do reservatório de Manso foi apontada como uma solução viável. Gilmar Brunetto reforçou o potencial de Mato Grosso, lembrando que 'o mundo precisa de comida', e que, com apenas meio hectare irrigado, um agricultor pode prosperar ao produzir itens com valor agregado, passíveis de comercialização e capazes de sustentar a família e o negócio.
O plano 'Mato Grosso 2050' se apresenta, portanto, como uma iniciativa crucial para não apenas reverter a crise na agricultura familiar, mas também para construir um futuro mais equitativo e sustentável para o estado, alinhando a riqueza natural e produtiva com o desenvolvimento social.
Fonte: https://www.rdnews.com.br