Às vésperas de uma das mais tensas eleições legislativas de Israel, marcadas para 26 de outubro de 2026, um nome emerge como o principal adversário do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu: Gadi Eisenkot. Com 66 anos, o ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses, e agora líder do partido Yashar, promete não apenas alternância de poder, mas uma profunda reconciliação em um país fragmentado. O pleito, o primeiro após a devastadora guerra em Gaza, se apresenta como um referendo sobre o futuro da liderança israelense.
A Candidatura pela Unidade e a Promessa de Mudança
Eisenkot encerrou sua campanha em Tel Aviv com um discurso focado na união nacional, um contraste direto com a polarização política que marcou os últimos anos. Em seu último comício, na noite de domingo, 25 de outubro, ele declarou: "Nosso objetivo não é que um lado prevaleça sobre o outro. Trabalharemos para reunir novamente todos os israelenses – aqueles que votaram em nós e aqueles que não votaram." Sua mensagem ressoou entre eleitores cansados das divisões, prometendo transparência, o fortalecimento das instituições e um renovado senso de responsabilidade estatal. Com um apelo direto à alternância, o candidato clamou para que "Netanyahu volte para casa" após as eleições, reforçando a percepção de que "o espírito da mudança está mais forte do que nunca".
Da Elite Militar à Arena Política
A trajetória de Gadi Eisenkot é intrinsecamente ligada à defesa de Israel. Militar de carreira, ele ascendeu por todos os postos das Forças Armadas, começando como soldado na renomada Brigada Golani, conhecida por sua atuação no Líbano. Seu ápice veio em 2015, quando foi nomeado o 21º chefe do Estado-Maior do Exército israelense, uma indicação notável que partiu justamente de Benjamin Netanyahu, o qual hoje ele busca substituir. Essa nomeação por seu atual rival político sublinha a complexidade das relações no topo da hierarquia israelense.
Sua incursão na política ocorreu mais tarde, em 2022, ao integrar uma aliança de centro liderada por Benny Gantz, também ex-comandante das Forças Armadas, e conquistando uma cadeira no Knesset. Essa transição de um respeitado líder militar para a arena legislativa preparou o terreno para seu papel central na política israelense, culminando na fundação de seu próprio partido, o Yashar – que pode ser traduzido como 'direto ao ponto' – em 2025.
Saída Turbulenta do Gabinete de Guerra
O ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 impulsionou Eisenkot de volta ao centro do poder, unindo-se ao governo de unidade nacional de Benjamin Netanyahu como ministro sem pasta e membro do gabinete de guerra. Durante esse período, participou ativamente das decisões estratégicas da ofensiva militar em Gaza, vivenciando uma tragédia pessoal profunda ao receber a notícia da morte de seu filho mais novo, Gal Meir Eisenkot, de 25 anos, que servia como reservista no território palestino.
Sua permanência no governo, contudo, foi breve. Em junho de 2024, Eisenkot se desligou, acusando Netanyahu de deliberadamente sabotar as negociações para a libertação dos reféns detidos em Gaza, cedendo às pressões de seus aliados da extrema direita. Essa ruptura marcou um ponto de inflexão, consolidando-o como uma voz dissidente e um forte oponente do primeiro-ministro.
Plataforma de Governo: Segurança, Reformas e um Novo Rumo
Apesar de sua relativa inexperiência política em comparação com Netanyahu, Eisenkot goza de considerável popularidade. Sua plataforma eleitoral, apresentada em seu último discurso de campanha, equilibra uma postura de segurança firme com propostas de reformas internas significativas. Ele se opõe à criação de um Estado palestino e promete derrotar o Hamas em até 18 meses, caso seja eleito, além de apoiar a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.
No entanto, Eisenkot se diferencia em questões cruciais de governança e justiça. Ele defende o fim da impunidade para colonos israelenses envolvidos em ataques contra civis palestinos. Propõe a revogação da controversa reforma judicial de Netanyahu, a criação de uma comissão de investigação independente sobre os ataques de 7 de outubro de 2023 e o fim da isenção do serviço militar para judeus ultraortodoxos – um tema que há muito divide a sociedade e a classe política de Israel. Ele prometeu romper com o modelo de governança de seu adversário, que dominou a política israelense por três décadas, declarando: "No fundo, vocês sabem que Israel não pode continuar assim."
O Apelo de um Outsider Experiente e as Projeções Eleitorais
O apelo de Eisenkot reside em sua imagem de líder forte e íntegro, combinada com uma proposta de ruptura com o status quo. Sua origem humilde, como filho de imigrantes marroquinos, o torna um símbolo para a comunidade sefardita, que reúne judeus do Norte da África e do Oriente Médio. Se vitorioso, seria o primeiro chefe de governo sefardita de Israel, um marco histórico. Essa combinação de experiência militar, pragmatismo político e uma origem que reflete a diversidade do país atrai eleitores que anseiam por uma liderança renovada.
As projeções eleitorais indicam uma disputa acirrada. Uma pesquisa do canal i24NEWS, realizada pelo instituto Direct Polls e divulgada no domingo, mostra que o bloco de Benjamin Netanyahu pode conquistar 59 das 120 cadeiras do Knesset, ficando a apenas dois assentos da maioria. A aliança liderada por Gadi Eisenkot aparece com 47 cadeiras, enquanto os partidos árabes somariam 14 assentos. Esses números sublinham que, mesmo que Eisenkot conquiste o primeiro lugar, a formação de uma coalizão de governo será essencial, exigindo habilidade política para negociar e reunir aliados em um cenário político fragmentado.
As eleições de Israel não são apenas uma escolha de líder, mas um julgamento popular sobre a direção do país em um momento de profundas crises internas e externas. Gadi Eisenkot se posiciona como a alternativa que promete não só segurança, mas também unidade e renovação para uma nação em busca de um novo caminho.
Fonte: https://g1.globo.com