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Argentina em Encruzilhada: Indústria em Crise e o Desafio ao Modelo de Milei

G1

Enquanto a Argentina celebra a significativa desaceleração da inflação, um contraste sombrio emerge no coração de sua economia: a indústria nacional enfrenta uma profunda crise, marcada por fábricas às escuras, demissões em massa e a ameaça iminente de concorrência importada. Esse cenário desafia diretamente as premissas do governo ultraliberal do presidente Javier Milei e intensifica o debate sobre a sustentabilidade de seu modelo econômico. A queda dos indicadores inflacionários, um dos pilares da gestão atual, é obscurecida pela crescente preocupação com o desemprego e a desindustrialização, que se tornam as principais angústias dos cidadãos.

O Declínio Industrial e o Custo Humano da Desindustrialização

O impacto da crise é tangível e se manifesta em histórias como a da fábrica de sapatos Kioshi, em Esteban Echeverría, nos arredores de Buenos Aires. Em 2023, a empresa empregava 120 pessoas; hoje, restam apenas 14. O diretor, Emmanuel Fernández, descreve um 'mercado interno morto', onde o poder de compra da população para bens como calçados praticamente desapareceu, agravado por uma 'avalanche de importação'. Esse quadro não é isolado; desde a posse de Milei em dezembro de 2023, cerca de 30 mil empresas fecharam as portas, resultando na perda de mais de 240 mil empregos formais no setor privado desde 2023.

A situação é ainda mais grave em cidades tradicionalmente industriais, como Zárate, a 90 km da capital. Miguel Márquez, aos 62 anos, é um dos muitos que sentem na pele o fechamento de fábricas emblemáticas. Após 20 anos na Clariant, uma produtora de insumos químicos para a indústria petrolífera, viu a unidade ser fechada em 2025. A empresa decidiu importar seus produtos de uma fábrica no Brasil, evidenciando a falta de restrições que tornam a produção local inviável. Dos 42 demitidos da Clariant, apenas dois conseguiram um novo emprego formal, enquanto a maioria, incluindo Márquez, se viu obrigada a recorrer a trabalhos informais, como motoristas de aplicativos, uma realidade que o governo vê como 'bolha' ao propor que empregos perdidos em um setor serão criados em outros.

A Batalha das Narrativas: Políticas de Milei Versus Apelos da Indústria

O governo Milei defende intransigentemente sua política de austeridade e desregulamentação como o caminho para o saneamento econômico, afirmando que ela 'não é negociável'. No entanto, essa postura colide frontalmente com as reivindicações da União Industrial Argentina (UIA). A entidade alertou na semana passada para a perda de aproximadamente 90 mil empregos na indústria desde agosto de 2023 e para o fato de que, em junho, o setor operava com cerca de 40% de capacidade ociosa. Dados oficiais revelaram uma queda de 5% na produção manufatureira entre junho e julho, o maior recuo em 16 meses. A UIA tem demandado medidas urgentes diante da abertura econômica e seus efeitos.

Em resposta aos empresários, o ministro da Economia, Luis Caputo, justificou a abertura econômica ao afirmar que seu papel é 'defender os interesses de 48 milhões de argentinos, não de determinados empresários'. Caputo argumentou que é 'imoral e injusto que os argentinos tenham que pagar por bens de menor qualidade duas, quatro, dez vezes o seu valor', em defesa da livre importação.

Concorrência Desleal e Entraves Estruturais para a Indústria Local

A perspectiva dos industriais, contudo, é de que as condições atuais tornam a competição uma batalha desigual. Alejandro Mayer, vice-presidente da fábrica de circuitos Ernesto Mayer, na periferia norte de Buenos Aires, que hoje opera com metade de suas máquinas desligadas, ressalta que 'ninguém quer não competir, mas também você tem que ter condições para competir'. Ele aponta o 'atraso cambiário' – uma taxa de câmbio que encarece os produtos locais em dólares – como um fator crucial. A isso se somam juros elevados sobre o crédito e uma carga tributária que, segundo ele, impede que a indústria argentina compita com nações como a China, mesmo quando a eficiência de produção é semelhante.

A 'avalanche de importação' e a ausência de restrições aduaneiras explicam a decisão de empresas como a Clariant de migrar a produção para o Brasil e importar, ao invés de fabricar localmente. Embora a economia argentina tenha registrado crescimento em setores específicos como hidrocarbonetos, mineração e agronegócio, impulsionados pela jazida de Vaca Muerta, a retração do comércio e da indústria afeta diretamente as grandes cidades, onde reside a maior parte da população e onde a falta de competitividade se manifesta de forma mais aguda.

Para Além da Inflação: A Realidade do Consumo e do Emprego

Um dos principais triunfos econômicos reivindicados pelo governo Milei é a redução da inflação, que caiu para 33,8% na comparação interanual em julho, vindo de patamares de três dígitos quando ele assumiu a presidência. No entanto, o presidente da UIA, Martín Rappallini, adverte que 'a economia não pode ser medida apenas pela evolução da inflação, temos que olhar para a atividade'. A redução dos preços, para muitos, tem sido um reflexo direto da drástica queda no consumo.

Essa percepção é confirmada por pequenos empresários, como Gloria Aparicio, sócia da Martin Blust, uma fábrica de cordas para instrumentos, que emprega dez pessoas e fecha às sextas-feiras por falta de encomendas. Ela sintetiza a situação: 'Não há inflação porque não há compras.' Essa realidade é corroborada por diversas pesquisas que indicam uma mudança na principal preocupação da população, com emprego e salários superando a inflação como o maior temor, evidenciando o dilema entre estabilidade de preços e o colapso da atividade econômica.

Conclusão: Pressão Crescente e o Futuro da Indústria Argentina

A dicotomia entre a queda da inflação e o aprofundamento da crise industrial na Argentina impõe um desafio complexo ao governo de Javier Milei. Enquanto o executivo defende a primazia da austeridade e da abertura econômica como pilares para a recuperação, o setor produtivo e seus trabalhadores enfrentam uma realidade de retração, desemprego e condições de competição consideradas desleais. A persistência do declínio industrial, com suas ramificações sociais e econômicas evidentes, continua a pressionar o governo por soluções que equilibrem a estabilidade macroeconômica com a vitalidade do mercado interno e a sustentabilidade do emprego, indicando que a jornada rumo à prometida prosperidade argentina ainda será longa e repleta de obstáculos.

Fonte: https://g1.globo.com

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