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Justiça para o Passado: Quadro Saqueado por Nazistas é Devolvido à Herdeira na Argentina

G1

Após décadas de busca e uma complexa saga jurídica, uma obra de arte do século XVIII, roubada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, está finalmente a caminho de ser restituída à sua legítima proprietária. Intitulado "Retrato de uma Dama", o valioso quadro italiano será entregue a Marei von Saher, única herdeira sobrevivente de Jacques Goudstikker, um renomado negociante de arte judeu holandês cuja coleção inestimável foi saqueada sob coação após a invasão da Holanda por Adolf Hitler em 1940. A decisão judicial, que põe fim a um capítulo doloroso da história, foi aprovada por um tribunal argentino, marcando um triunfo significativo na incessante luta pela recuperação de bens culturais espoliados.

O Acordo de Restituição e as Implicações Legais

A devolução do "Retrato de uma Dama" concretiza-se através de um acordo histórico homologado pela justiça argentina. Patricia Kadgien, filha do falecido oficial nazista Friedrich Kadgien, e seu marido, Juan Carlos Cortegoso, concordaram em renunciar a qualquer reivindicação sobre a pintura. Esta decisão permitiu que o casal evitasse um julgamento criminal por receptação qualificada, acusação que enfrentavam desde o ano passado, quando autoridades afirmaram que ocultaram a obra, apesar do conhecimento de que era procurada por investigadores internacionais.

Como parte dos termos do acordo, Kadgien e Cortegoso ficarão sob supervisão judicial por dois anos. Durante esse período, eles deverão realizar pagamentos a um hospital na cidade costeira de Mar del Plata, onde residem, além de manter as autoridades informadas sobre seu paradeiro. Este desfecho jurídico abre caminho para que a tela chegue às mãos de Marei von Saher, que tem dedicado sua vida à recuperação do patrimônio artístico de sua família, brutalmente subtraído pelo regime nazista.

A Misteriosa Redescoberta em Mar del Plata

A longa busca pelo "Retrato de uma Dama" encerrou-se de maneira inusitada em agosto do ano passado, quando repórteres holandeses, investigando a trajetória de Friedrich Kadgien – um oficial nazista que fugiu para a Argentina após a Segunda Guerra – identificaram a obra. A pintura, elegantemente pendurada sobre um sofá de veludo verde, apareceu em um anúncio imobiliário online da residência rústica da filha de Kadgien em Mar del Plata. A descoberta, inicialmente uma coincidência fortuita, transformou-se rapidamente em uma investigação judicial.

O anúncio, uma vez divulgadas as descobertas pelo jornal 'Algemeen Dagblad' de Roterdã, desapareceu poucas horas depois. Embora a polícia argentina tenha realizado várias buscas na casa, a pintura não foi encontrada de imediato. Somente mais de uma semana depois, o advogado da família entregou a obra às autoridades, colocando fim ao seu paradeiro desconhecido por mais de 80 anos e dando início ao processo de restituição.

A Identidade e o Legado da Obra de Arte

Durante décadas, o "Retrato de uma Dama" foi atribuído ao pintor barroco italiano Giuseppe Vittore Ghislandi, figurando sob essa autoria nos registros da coleção de Jacques Goudstikker e em exposições pré-guerra em Amsterdã. Contudo, uma perícia recente, realizada pela Academia Nacional de Belas Artes da Argentina a pedido da justiça, concluiu que a obra é, na verdade, do artista italiano Giacomo Antonio Melchiorre Ceruti. Especialistas confirmaram a autenticidade da pintura como parte da vasta coleção de Goudstikker, estimando seu valor atual em cerca de 250 mil euros.

Jacques Goudstikker foi uma figura central no mercado de arte europeu antes da Segunda Guerra, reconhecido por sua coleção que incluía mestres como Rembrandt e Vermeer. Sua trágica morte ocorreu em um naufrágio em maio de 1940, enquanto tentava escapar de Amsterdã com sua família no auge da invasão alemã. Estima-se que cerca de 1.100 obras de sua coleção foram ilegalmente vendidas a Hermann Göring, o 'braço direito' de Hitler, que montou um vasto acervo de arte roubada durante o conflito.

Os Ecos da Guerra e a Busca Contínua por Justiça

A presença do "Retrato de uma Dama" nas mãos da família Kadgien levanta questões sobre o fluxo de obras de arte roubadas durante a guerra. Friedrich Kadgien atuou como consultor financeiro de Göring, responsável por gerenciar divisas, metais preciosos e a venda de bens confiscados pelo regime nazista. Embora não esteja claro o caminho exato que o quadro percorreu até suas mãos, sua fuga da Europa após a derrota da Alemanha – primeiro para a Suíça e depois para a Argentina – ilustra a impunidade de muitos criminosos de guerra. Kadgien faleceu no país sul-americano em 1978, sem nunca ter sido preso ou acusado por seus crimes.

A luta de Marei von Saher, residente em Greenwich, Connecticut, representa a persistência das gerações pós-guerra em buscar reparação e recuperar o legado cultural de suas famílias. Em um gesto de boa vontade e para que a história da pintura seja devidamente reconhecida, os advogados de von Saher confirmaram que ela concordou em permitir que a obra seja exibida na Argentina antes de ser definitivamente enviada para sua custódia. Além do "Retrato de uma Dama", investigações mais amplas na Argentina continuam: durante as buscas nas propriedades da família Kadgien, a polícia também apreendeu outras duas pinturas do século XIX e diversas gravuras, com as autoridades empenhadas em determinar se essas obras também foram saqueadas durante o período da Segunda Guerra Mundial, reforçando a importância da vigilância e da justiça histórica.

A restituição do "Retrato de uma Dama" não é apenas a devolução de uma peça de arte valiosa; é um ato de justiça, um reconhecimento da violência histórica e um tributo à memória de Jacques Goudstikker e de todas as vítimas do saque nazista. Este desfecho reafirma o compromisso global em corrigir as injustiças do passado, garantindo que o patrimônio cultural retorne aos seus legítimos herdeiros e que a história seja contada com verdade e dignidade. A exibição e eventual retorno da pintura para von Saher servem como um lembrete vívido da resiliência humana e da duradoura busca por redenção.

Fonte: https://g1.globo.com

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