O cenário agrário brasileiro registrou uma complexa dualidade no primeiro semestre de 2026. Embora o número de vidas ceifadas no campo tenha diminuído significativamente em comparação ao ano anterior, o país testemunhou um aumento preocupante na incidência de conflitos agrários. Os dados, compilados e divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) nesta quarta-feira (2), apontam para uma intensificação dos embates por terra e recursos, impulsionados, segundo a entidade, pela crescente mercantilização e financeirização do território nacional.
Panorama dos Conflitos: Mais Confrontos, Menos Vítimas Fatais
Nos primeiros seis meses de 2026, a CPT contabilizou seis assassinatos no campo, uma drástica redução em relação aos 27 registrados no mesmo período de 2025. Contudo, essa diminuição nas mortes não se traduziu em um campo mais pacífico. Pelo contrário, o total de conflitos agrários escalou de 798 para 841, evidenciando uma pressão crescente sobre as comunidades rurais e os recursos naturais. A despeito da queda no número absoluto de assassinatos, a comissão sublinha a persistência de um padrão preocupante: os massacres, caracterizados pela morte de múltiplas pessoas em um único incidente, continuam sendo uma característica marcante da violência fundiária.
A Profundidade da Crise: Mercantilização e Financeirização da Terra
A análise da CPT atribui o recrudescimento dos conflitos à intensificação dos processos de mercantilização e financeirização da terra. Cecília Gomes, coordenadora nacional da CPT, destacou à Agência Brasil que o campo brasileiro está longe de ser um 'lugar de paz', onde a resistência pela permanência na terra não é uma constante. Essa corrida por terras e seus recursos se manifesta através da atuação de fundos de pensão e do crescente interesse em jazidas de 'terras raras', que frequentemente se encontram em territórios de comunidades tradicionais e camponesas. Essa dinâmica, de acordo com Gomes, eleva a pressão sobre os ocupantes e as riquezas naturais, alimentando os conflitos.
As Diferentes Faces da Violência Agrária
O levantamento da CPT categoriza os conflitos em diversas tipologias, revelando as principais frentes de disputa no meio rural brasileiro. Conflitos por terra, por água e ocorrências de trabalho escravo rural compõem o quadro geral da violência no campo.
Conflitos por Terra: Expansão do Agronegócio e Novas Ameaças
A maior parcela dos confrontos (711 casos) está ligada diretamente à posse e uso da terra. Observa-se um aumento das violências, que passaram de 584 para 663, enquanto a resistência por parte das comunidades manteve a tendência de queda dos últimos dez anos, diminuindo de 66 para 48 casos. O Maranhão lidera essa triste estatística com 153 ocorrências, seguido pela Bahia (76), Pará (68) e Rondônia (54). Destaque para o Amazonas, que registrou um impressionante aumento de 140% nos conflitos por terra, saltando de 37 para 52 casos em um ano.
As formas de violência mais frequentes e alarmantes são a contaminação por agrotóxicos (que cresceu de 98 para 169 casos), invasões de territórios (de 96 para 109), desmatamento ilegal (de 67 para 107) e ameaças de despejo (de 63 para 70). A CPT associa essas violências à expansão do agronegócio, com o Maranhão sendo um epicentro dessa dinâmica. Cecília Gomes alerta para o caráter insidioso da violência por agrotóxicos, descrita como uma 'arma química' que 'vai matando o sujeito aos poucos'.
A Luta pela Água: Expansão e Resistência Indígena
Os conflitos pela água registraram uma expansão notável, mais que dobrando de 47 para 100 registros em 20 estados brasileiros. O Pará se destaca com 16 ocorrências, seguido por Minas Gerais (11), Amazonas (10) e Mato Grosso (10). No Pará, a CPT relata que os primeiros meses de 2026 foram marcados pela resistência de povos indígenas contra a privatização de rios pelo governo federal e a intensificação da atuação de garimpeiros. Ribeirinhos e outras comunidades também lutam contra os impactos de mineradoras. A luta indígena foi crucial para a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que incluía hidrovias em rios estratégicos no Programa Nacional de Desestatização.
Trabalho Escravo Rural: Queda nos Resgates
Em um ponto positivo, as ocorrências de trabalho escravo rural apresentaram uma queda significativa no primeiro semestre de 2026, com 30 registros, contrastando com os 101 do mesmo período de 2025. Consequentemente, o número de trabalhadores resgatados também diminuiu, passando de 842 para 355.
Metodologia e Perspectivas para 2027
Os dados apresentados pela CPT são fruto de um meticuloso trabalho de coleta de informações realizado por seus agentes em todo o território nacional. Essa metodologia é complementada pela análise de notícias veiculadas pela imprensa, divulgações de órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras da CPT. O levantamento referente ao primeiro semestre de 2026 é fundamental para avaliar as tendências atuais dos conflitos no campo e servirá como base para a elaboração do relatório anual 'Conflitos no Campo Brasil', que será lançado em 2027, oferecendo uma visão aprofundada da dinâmica fundiária brasileira.
A Complexidade do Campo Brasileiro: Um Chamado à Paz
O panorama desenhado pela CPT revela um campo brasileiro em constante tensão, onde a diminuição de assassinatos é um alento, mas o crescimento dos conflitos por terra e água demonstra que as raízes da violência persistem e se aprofundam, muitas vezes ligadas a interesses econômicos e financeiros. A luta pela permanência e pela dignidade das populações rurais continua sendo um desafio central para o país, reforçando a urgência de políticas que promovam a justiça social e ambiental em um território tão vasto e disputado.