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Diagnóstico Tardio da Esclerose Múltipla Agrava Condição de Pacientes no Brasil

© NeuroGraphix Studio/ AdobeStock

Aproximadamente um quarto dos pacientes brasileiros com esclerose múltipla enfrenta uma espera de mais de cinco anos para receber um diagnóstico preciso, cenário que contribui significativamente para a progressão e severidade da doença. Essa preocupante realidade foi evidenciada por uma pesquisa conduzida pela HSR Health, em colaboração com a Roche Farma, e divulgada pela Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM) durante o Agosto Laranja, mês dedicado à conscientização sobre a esclerose múltipla. O estudo, que ouviu 368 indivíduos em tratamento no país, lança luz sobre os obstáculos que dificultam o acesso a uma identificação precoce da enfermidade, crucial para a qualidade de vida dos acometidos.

Os Desafios do Diagnóstico no Brasil

Os dados levantados pela pesquisa revelam um panorama desafiador: mais da metade dos entrevistados (56,8%) recebeu, inicialmente, um diagnóstico incorreto antes de ter a esclerose múltipla confirmada. Alarmantemente, 26,6% dos pacientes aguardaram por mais de cinco anos para o diagnóstico definitivo, enquanto 14,1% levaram uma década ou mais entre o surgimento dos primeiros sintomas e a identificação correta da doença. Essa demora não é um mero inconveniente; ela tem consequências severas. Conforme explica o neurologista Rodrigo Kleinpaul, coordenador do Ambulatório de Neuroimunologia do Hospital das Clínicas da UFMG, a agilidade na detecção é vital para mitigar danos neurológicos permanentes, que podem levar a uma progressão de incapacidade irreversível.

Barreiras Sistêmicas e Clínicas para a Detecção

A pesquisa aponta para múltiplas barreiras que contribuem para o atraso no diagnóstico. Para 36% dos entrevistados, os próprios médicos e profissionais de saúde são a principal dificuldade. Outros 23% citaram a dificuldade de acesso a exames e investigações específicas, como a ressonância magnética, devido ao seu custo elevado. A percepção da demora em si foi apontada por 18%, e 12% mencionaram os custos envolvidos no acesso ao diagnóstico correto. Dr. Kleinpaul ressalta que o paciente, em média, visita até quatro médicos diferentes e demora cerca de três anos para obter o diagnóstico preciso, um reflexo da complexidade em se identificar a esclerose múltipla.

A natureza multifacetada dos sintomas iniciais da esclerose múltipla, que podem ser confundidos com outras condições, complica ainda mais o cenário diagnóstico. Sintomas como embaçamento visual podem ser erroneamente atribuídos a problemas oftalmológicos, enquanto dores, dormências e formigamentos são frequentemente interpretados de forma equivocada. Para agravar, muitos desses sintomas iniciais tendem a regredir espontaneamente, o que pode levar à desvalorização da queixa. Um exemplo comum, segundo o neurologista, é o de jovens mulheres que chegam a prontos-socorros com queixas de formigamento e dormência, sendo erroneamente diagnosticadas com ansiedade, atrasando ainda mais o tratamento adequado.

Esclerose Múltipla: Uma Doença Crônica e Seus Impactos

A esclerose múltipla é uma doença inflamatória crônica e autoimune que afeta aproximadamente 40 mil brasileiros, de acordo com a ABEM. Caracteriza-se pelo ataque do sistema imunológico à mielina, a camada protetora das fibras nervosas, o que compromete a comunicação eficaz entre o cérebro e o restante do corpo. Embora possa afetar qualquer pessoa, a doença é mais prevalente em mulheres jovens, geralmente na faixa etária dos 20 aos 40 anos, período de maior produtividade e inserção social. As consequências da esclerose múltipla são abrangentes, impactando a mobilidade, a capacidade de trabalho, a rotina diária, a saúde mental e a autonomia dos indivíduos. É reconhecida como a causa mais comum de incapacidade por doenças neurológicas em pacientes jovens, excluindo as de origem traumática, evidenciando a urgência de um diagnóstico precoce e preciso.

A Luta Contra a Invisibilidade: O Relato de Lucimara Santana

A história de Lucimara de Lima Santana, educadora física de 44 anos, ilustra de forma contundente os desafios enfrentados por muitos pacientes. Desde os primeiros sintomas, Lucimara percorreu consultórios de diversos especialistas em São Paulo por quatro longos anos antes de descobrir sua condição. Ela buscava tratamento para sintomas isolados: oftalmologista para problemas de visão, ortopedista para dificuldades de locomoção, e chegou a atribuir a fadiga intensa à colangite biliar primária, uma condição pré-existente.

Entre 2023 e 2024, a saúde de Lucimara deteriorou-se drasticamente. Sintomas mais graves surgiram, como dificuldade para respirar devido à exaustão e dores intensas, que a incapacitaram e a impediram de trabalhar. Nesse período, recebeu diagnósticos variados, incluindo dengue, o que atrasou ainda mais a investigação adequada. O ponto de virada ocorreu após uma consulta com um ortopedista, que solicitou uma ressonância magnética do crânio e da cervical, revelando indícios de uma doença paralisante. Subsequentemente, um neurologista especialista requisitou uma ressonância de toda a coluna e a coleta de líquor (líquido cefalorraquidiano). Todos esses exames finalmente confirmaram o diagnóstico de esclerose múltipla.

Atualmente, Lucimara, que é professora de educação física concursada na Prefeitura de Taboão da Serra (SP), convive com as sequelas da doença, como a fadiga crônica que a impede de permanecer em pé por longos períodos. Seu caso ressalta a importância de um olhar clínico atento e da superação de barreiras diagnósticas para evitar o agravamento da condição e preservar a autonomia dos pacientes.

Conclusão: A Urgência do Diagnóstico Precoce

Os dados da pesquisa e os relatos de pacientes como Lucimara Santana reforçam a necessidade premente de aprimorar os processos de diagnóstico da esclerose múltipla no Brasil. A demora na identificação da doença não apenas favorece sua progressão, mas também acarreta custos emocionais, físicos e financeiros significativos para os pacientes e suas famílias. É fundamental que haja maior conscientização entre profissionais de saúde e a população em geral, além de políticas públicas que facilitem o acesso a exames especializados e a especialistas. Somente com um diagnóstico ágil e preciso será possível iniciar o tratamento em tempo hábil, retardar a evolução da doença e, consequentemente, oferecer uma melhor qualidade de vida para as milhares de pessoas que convivem com a esclerose múltipla no país.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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