O Nepal foi palco de uma tragédia devastadora nesta quarta-feira (26), quando uma súbita e massiva enxurrada, seguida de deslizamentos de terra, varreu aldeias e estradas na fronteira com o Tibete. O desastre, que transformou rios em tsunamis de lama, deixou um rastro de destruição e desespero, ceifando a vida de ao menos 157 pessoas e deixando centenas de desaparecidos, incluindo turistas estrangeiros. A nação himalaia, já vulnerável, agora corre contra o tempo em uma corrida desesperada por sobreviventes e um futuro incerto para milhares de desalojados.
A Tragédia Inesperada no Coração do Himalaia
O evento catastrófico, descrito como "repentino e devastador" por testemunhas, surpreendeu comunidades como a de Rasuwa. A principal hipótese para o início da sequência de eventos é uma avalanche de gelo em altitudes elevadas. Além das 157 mortes confirmadas, o Conselho de Turismo do Nepal reportou um alarmante número de 579 viajantes desaparecidos, dos quais 466 são estrangeiros provenientes de 28 países diferentes, com destaque para 133 indianos, 54 americanos e 33 britânicos, e 61 nepaleses. As enxurradas não apenas destruíram casas, mas também infraestruturas críticas, isolando comunidades e dificultando o acesso de equipes de resgate.
Relatos de Perda e Sobrevivência em Meio ao Caos
Entre os que enfrentam a dor da perda está Sonam Dorjee, um guia de trekking que ouviu o som aterrorizante da água se aproximando de sua aldeia. Ele descreveu a experiência como "um terremoto", e lamenta a perda de sua casa e o desaparecimento de sua irmã, Dechen Tamang, seu cunhado e outros membros da família. Apesar da escassez de esperança, Sonam se agarra a uma pequena chance, rezando para que seus entes queridos sejam encontrados com vida. A situação de muitos sobreviventes é crítica, com a necessidade urgente de resgate, evacuação, alimentos, abrigo temporário e apoio médico.
No distrito de Nuwakot, um dos mais atingidos, Kalpana Malla vivenciou um pesadelo: assistiu impotente enquanto a enchente arrastava seu pai, mãe, irmã e os filhos dela. Milagrosamente, ela e seu filho, Sugam, sobreviveram ao subir no telhado de uma casa. Sugam, por sua vez, resgatou a mãe e expressa profunda preocupação pela irmã, a quem havia dado seu telefone para pedir ajuda, mas agora não consegue contatá-la. A destruição em Nuwakot é generalizada, com 11 mortos e sérios danos a estradas, pontes, redes de comunicação e projetos hidrelétricos, como o de Trishuli.
Goma Pandit, também residente de Nuwakot, viu seu sustento ser completamente dizimado. A força da água levou sua casa, todo o seu rebanho de búfalos e gado, além de suas plantações e reservas de sementes de mostarda, milho e arroz, evidenciando o profundo impacto econômico e social nas famílias agricultoras da região.
A Batalha Contra o Tempo: Resgate e Ajuda Humanitária
Em resposta à catástrofe, as equipes de resgate nepalesas estão em uma corrida frenética contra o tempo. O Exército do país mobilizou 1.697 militares para as operações de busca e salvamento, com outros 656 em prontidão. Helicópteros desempenham um papel crucial: seis militares resgataram 94 pessoas, enquanto cinco helicópteros civis salvaram outras 12. As equipes terrestres também conseguiram resgatar 27 indivíduos, totalizando 133 pessoas salvas até o momento, em meio à destruição e ao lodo.
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, manifestou o "choque e profundo abalo" da nação pela perda de vidas e pela magnitude dos danos. Em uma declaração nas redes sociais, ele classificou o desastre como "repentino e de grandes proporções", estendendo condolências às vítimas e suas famílias. Shah assegurou que o governo mobilizou imediatamente todos os recursos disponíveis para as operações de resgate e assistência, enfatizando o compromisso em apoiar os afetados.
O Contexto de uma Nação Vulnerável
Situado entre a China e a Índia, o Nepal é o lar de oito das montanhas mais altas do mundo, incluindo o icônico Monte Everest, conhecido localmente como Sagarmatha. No entanto, sua beleza natural contrasta com a realidade socioeconômica: o Nepal é um dos países mais pobres do mundo, com uma economia fortemente dependente de ajuda externa e do turismo. Essa dependência acentua a vulnerabilidade do país a desastres naturais como este, que não apenas causam perdas humanas e materiais, mas também comprometem a infraestrutura e a capacidade de recuperação econômica, tornando o impacto do desastre ainda mais profundo e duradouro.
Enquanto as operações de busca e resgate persistem na esperança de encontrar mais sobreviventes, o Nepal se prepara para um longo e árduo caminho de recuperação. A solidariedade internacional e o apoio contínuo serão cruciais para ajudar o país a reconstruir suas comunidades e oferecer suporte aos milhares de nepaleses que perderam tudo nas águas da enxurrada.
Fonte: https://g1.globo.com