Em um cenário de tensões crescentes, a Síria expressou a esperança de retomar em breve as negociações com Israel sobre um acordo de segurança abrangente. No entanto, Damasco impõe condições claras: o fim imediato dos ataques israelenses e a eventual retirada de suas forças de território sírio. O Ministro das Relações Exteriores sírio, Asaad al-Shaibani, destacou em entrevista à Reuters a necessidade de Israel aproveitar uma "oportunidade histórica" para a diplomacia, dias após um bombardeio israelense a uma base aérea síria.
Apesar da porta para o diálogo estar aberta, a prioridade máxima para Damasco é interromper a agressão militar israelense. Shaibani enfatizou que a construção de confiança mútua é essencial para qualquer progresso, reconhecendo a complexidade de se engajar com uma parte que percebe como uma ameaça constante.
Condições Sírias para o Diálogo e a Desconfiança Mútua
As negociações entre Síria e Israel, que visavam um acordo de segurança, encontram-se congeladas desde o início do recente conflito entre Irã e Israel. O contato direto foi interrompido após o recente ataque israelense a uma base aérea síria. Asaad al-Shaibani articulou a posição síria, afirmando que embora o contato seja desejável com um vizinho que ameaça a segurança do país, ele só se justifica se produzir resultados tangíveis. Atualmente, a Síria declara não confiar nas intenções de Israel, uma percepção que tem sido um grande obstáculo para o avanço diplomático.
Para Damasco, o foco principal é a reconstrução após 14 anos de guerra, e o país reafirma que não representa uma ameaça a outras nações. A Síria, segundo Shaibani, está "estendendo a mão para entendimentos, para a paz, para a diplomacia" e para a estabilidade regional, mas não à custa de sua soberania e segurança.
O Papel da Mediação Americana e os Desafios no Caminho da Paz
Washington tem desempenhado um papel ativo, tentando construir um acordo de segurança entre Israel e o governo do presidente sírio Ahmed al-Sharaa, que emergiu como um novo aliado dos EUA no Oriente Médio. Há mais de um ano, os Estados Unidos têm pressionado para a concretização desse pacto, mas o processo tem se mostrado árduo. Israel, por sua vez, tem justificado suas incursões e ataques a instalações sírias alegando ameaças à sua própria segurança, o que complica a já frágil relação.
Apesar da contínua pressão americana para que Israel retorne à mesa de diálogo, o ministro sírio expressou ceticismo sobre a real disposição israelense. Observadores e líderes sírios apontam que Israel tem tentado garantir sua segurança através da força, sem sucesso duradouro, o que só reforça a necessidade de uma abordagem diplomática e respeitosa às preocupações de segurança de ambos os lados.
Propostas Anteriores e a Ausência de Vontade Política Israelense
No início do ano, Síria e Israel chegaram a um consenso "por escrito sobre quase tudo" em relação a um acordo de segurança. Esse pacto exigiria que Israel parasse de atacar a Síria e estaria intrinsecamente ligado à sua retirada de território sírio ocupado após a queda de Bashar al-Assad em 2024. A proposta incluía a criação de diversas zonas de segurança em solo sírio perto da fronteira com Israel, com uma zona de amortecimento exclusiva para as Nações Unidas e outras com diferentes níveis de presença de forças sírias.
Contudo, segundo Shaibani, Israel buscou evitar a implementação do acordo, o que levou a Síria a questionar a genuína vontade israelense de selar um pacto duradouro. A Síria enfatiza que, embora respeite as preocupações de segurança de Israel, exige o mesmo respeito por suas próprias preocupações, que incluem o uso indevido de seu espaço aéreo, os ataques frequentes e as prisões no sul do país.
O Horizonte da Paz: Colinas de Golã e Mecanismos de Prevenção
A relação entre Síria e Israel é historicamente complexa, estando tecnicamente em estado de guerra desde 1948, e a questão das Colinas de Golã, tomadas por Israel em 1967, permanece um ponto central de discórdia. O Ministro Shaibani reiterou que a prioridade imediata é "interromper a agressão israelense mesmo antes de chegar a um acordo de segurança". Somente após esse passo fundamental, a Síria estaria disposta a abrir discussões sobre a paz e o futuro das Colinas de Golã.
Em paralelo aos esforços bilaterais, o enviado especial dos EUA para a Síria, Tom Barrack, anunciou que Washington está trabalhando para estabelecer um mecanismo de prevenção de conflitos envolvendo Israel, Turquia e Síria. Este mecanismo, se concretizado, teria o objetivo de cessar os ataques e preparar o terreno para um acordo de segurança, evitando a consolidação de ocupações territoriais. A Síria mantém uma "esperança muito grande" de construir relações estáveis com seus vizinhos, mas a concretização dessas aspirações ainda enfrenta enormes desafios.
O caminho para a estabilidade regional no Oriente Médio, portanto, passa pela resolução dessas tensões crônicas, exigindo um compromisso genuíno com a diplomacia e o respeito mútuo à soberania e segurança, uma aposta que a Síria, apesar de cautelosa, ainda se dispõe a fazer.
Fonte: https://g1.globo.com