A Coreia do Norte tem mobilizado sua imprensa estatal para orientar a população diante de uma onda de calor sem precedentes que assola o país. Com temperaturas atingindo picos históricos, as autoridades de Pyongyang divulgaram uma série de recomendações que abrangem desde a hidratação e cuidados básicos de saúde até a sugestão de pratos tradicionais, como a sopa de carne de cachorro e o caldo de galinha, para mitigar os efeitos das altas temperaturas.
Onda de Calor Recorde e Respostas Oficiais
Na quinta-feira, 6 de agosto, a capital Pyongyang registrou um recorde histórico de 36,7°C, a temperatura mais elevada desde o início das medições meteorológicas na cidade, conforme informações veiculadas pela televisão estatal norte-coreana, citadas pela agência Reuters. Este período de calor intenso coincide com o 'sambok', uma expressão coreana que designa os dias mais quentes do verão, tradicionalmente associados à necessidade de medidas especiais para preservar a saúde. Diante deste cenário, a mídia oficial tem enfatizado a importância de a população adotar práticas de autocuidado.
Tradições Gastronômicas Contra o Calor Extremo
Entre as diretrizes mais notáveis, o jornal oficial do Partido dos Trabalhadores da Coreia, Rodong Sinmun, dedicou uma reportagem a alimentos considerados ideais para a estação. A lista de sugestões incluiu frutas e vegetais frescos como melancia, pepino e feijão-mungo, além de pratos mais substanciais. A sopa de carne de cachorro, um prato com forte associação cultural ao verão na Coreia, foi especificamente destacada, com a publicação rememorando um antigo ditado popular que a relaciona ao alívio do calor intenso.
Outro prato que ganhou evidência na imprensa estatal foi o samgyetang, uma sopa de frango enriquecida com ingredientes como ginseng, arroz glutinoso e tâmaras. A agência estatal KCNA reportou um aumento significativo no movimento de restaurantes em Pyongyang, com cidadãos buscando essas e outras iguarias que, segundo a crença popular, ajudam o corpo a resistir às altas temperaturas. Mingaus e outros alimentos tradicionais também foram mencionados como parte do repertório culinário para enfrentar o verão.
Saúde Pública e Cenários de Lazer
Além das recomendações alimentares, a televisão estatal tem oferecido orientações abrangentes sobre hidratação adequada, a importância de atividades físicas moderadas e precauções gerais durante o calor extremo. Contudo, diferentemente da Coreia do Sul, que já reportou mais de 20 mortes relacionadas às altas temperaturas, segundo a Reuters, a Coreia do Norte não divulgou dados sobre possíveis vítimas fatais em seu território.
Paralelamente, a mídia estatal tem exibido imagens de praias e piscinas lotadas, retratando um cenário de lazer e alívio do calor. A Zona Turística Costeira de Wonsan Kalma, um projeto ambicioso do líder Kim Jong-un, bem como parques aquáticos na capital, foram mostrados como destinos populares para a população buscar refúgio e entretenimento durante o verão.
A Imagem do Líder em Tempos de Adversidade
Em meio à cobertura sobre a onda de calor, a imprensa oficial norte-coreana também reforçou uma narrativa já estabelecida: a de Kim Jong-un como um líder que compartilha e enfrenta as mesmas dificuldades que seu povo. O jornal Rodong Sinmun relembrou episódios passados nos quais Kim teria conduzido inspeções sob condições climáticas adversas. Um relato de 2013, por exemplo, descreve suas roupas encharcadas de suor durante uma visita a um canteiro de obras.
Outras ocasiões, como uma viagem em 2018 para selecionar um local para um resort de águas termais, foram citadas para ilustrar sua suposta resiliência, mesmo sob chuva e em terrenos montanhosos. Apesar dessa constante exaltação de sua resistência, não foram fornecidas informações específicas sobre a agenda recente de Kim Jong-un durante a atual onda de temperaturas extremas que afeta o país.
Conclusão
A resposta da Coreia do Norte à onda de calor recorde é multifacetada, combinando orientações de saúde pública, o resgate de tradições culinárias centenárias e uma cuidadosamente orquestrada campanha de mídia. Enquanto a população é incentivada a se proteger com pratos específicos e lazer organizado, a narrativa oficial se esforça para projetar uma imagem de resiliência coletiva, liderada por um chefe de estado que, historicamente, demonstra sua solidariedade ao enfrentar desafios, mesmo que as informações sobre sua presença atual permaneçam escassas.
Fonte: https://g1.globo.com