Dois eventos sísmicos significativos, com apenas um mês de diferença, revelaram a capacidade de resposta e a vulnerabilidade de diferentes nações diante da força da natureza. Enquanto o Japão enfrentou um terremoto de magnitude 7,1 nesta terça-feira, a Venezuela foi atingida por abalos com magnitudes de 7,2 e 7,5 há um mês. Embora a força e a profundidade dos tremores apresentassem similaridades notáveis, o rastro de destruição e o número de vítimas variaram drasticamente entre os dois países, evidenciando o papel crucial da preparação e da infraestrutura.
Perfil Sísmico: Similaridades e Diferenças Geológicas
Apesar dos resultados desiguais, os parâmetros geológicos dos terremotos no Japão e na Venezuela mostraram coincidências intrigantes. No Japão, a Agência Meteorológica (JMA) registrou um único tremor de magnitude 7,1, com um epicentro localizado em terra, nas proximidades das cidades de Kumamoto e Uki, na ilha de Kyushu. A profundidade deste sismo foi notavelmente rasa, a apenas 10 km da superfície. Em contraste, a Venezuela experienciou dois abalos consecutivos: o primeiro com magnitude 7,2 e o segundo, segundos depois, com 7,5, sendo este último o mais potente. Os epicentros venezuelanos também foram em terra, na região centro-norte do estado de Yaracuy, próxima à costa. As profundidades foram de 20,3 km para o primeiro tremor e de 10 km para o segundo, espelhando a rasura do evento japonês.
A Dimensão da Destruição: Infraestrutura e Impacto Econômico
A resposta das infraestruturas aos terremotos foi um dos pontos mais discrepantes na comparação. No Japão, os relatos iniciais indicaram o desabamento parcial do shopping Aeon Mall em Kashima e a queda de uma chaminé na fábrica Nippon Paper. A primeira-ministra também mencionou pontes desabadas, estradas com rachaduras, focos de incêndio e interrupções no fornecimento de energia. O transporte foi afetado com a suspensão de trens-bala e o fechamento do aeroporto de Aso Kumamoto. É relevante destacar que as usinas nucleares do país não reportaram anomalias, um indicativo da robustez de seus sistemas de segurança.
Na Venezuela, o quadro foi significativamente mais grave. O governo confirmou danos em quase mil edifícios, com 190 deles colapsando completamente. O Aeroporto Internacional Simón Bolívar foi danificado e teve que ser fechado. Pontes, estradas, o fornecimento de energia, água e telecomunicações foram severamente comprometidos, impactando a vida de milhões. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estimou as perdas econômicas em, no mínimo, US$ 6,7 bilhões, o que sublinha a extensão do desastre financeiro além das perdas materiais.
Vidas Perdidas e Feridas: O Preço Humano dos Tremores
O balanço de vítimas humanas é talvez o indicador mais comovente da diferença na resiliência entre os dois países. No Japão, mesmo com um tremor forte e raso, os relatórios iniciais falavam em ao menos 50 pessoas hospitalizadas e um número estimado de 34 a 44 desaparecidos, incluindo trabalhadores do shopping. A polícia local mencionou um 'número considerável' de vítimas no shopping Aeon Mall, mas um balanço oficial de mortos ainda não havia sido divulgado, sugerindo que o número seria, comparativamente, baixo.
A situação na Venezuela foi tragicamente distinta. O balanço oficial confirmou mais de 5.000 mortos (5.069), um número que continuou a crescer com o avanço das buscas nos escombros. Além disso, 16.740 pessoas ficaram feridas. Quanto aos desaparecidos, as autoridades venezuelanas evitaram divulgar um número oficial, mas a ONU estimou que a cifra poderia chegar a impressionantes 50 mil, revelando a magnitude da tragédia humana que se desenrolou no país.
Preparação Sísmica: O Diferencial Crucial na Mitigação de Desastres
A disparidade nos desfechos entre Japão e Venezuela pode ser amplamente explicada pela infraestrutura e pelos protocolos de prevenção e resposta a terremotos de cada nação. O Japão é reconhecido mundialmente como uma referência em prevenção sísmica, com códigos de construção antissísmicos extremamente rigorosos que garantem que edifícios suportem tremores severos. O país também possui sistemas de alerta precoce altamente eficientes, simulados frequentes e uma resposta governamental imediata e bem coordenada. No evento desta terça-feira, uma força-tarefa foi rapidamente montada, cerca de 3.600 militares foram mobilizados, e 300 mil pessoas foram orientadas a buscar abrigos, minimizando perdas e ferimentos. É justamente essa cultura de preparação que explica por que um terremoto de magnitude 7,1 e baixa profundidade resultou em um número relativamente baixo de mortes e feridos até o momento.
Na Venezuela, o cenário é inversamente proporcional. Muitos edifícios, especialmente em La Guaira e Caracas, não foram construídos conforme as normas sísmicas modernas, o que resultou em colapsos generalizados de estruturas, mesmo as que não eram consideradas antigas. A resposta do governo foi amplamente criticada por ser lenta e ineficiente, com relatos de famílias buscando vítimas nos escombros com as próprias mãos devido à falta de maquinário pesado e equipes de resgate adequadas. Essa falta de preparação e a fragilidade da infraestrutura transformaram um evento sísmico já potente em uma catástrofe humanitária de proporções avassaladoras.
A comparação entre os terremotos no Japão e na Venezuela serve como um lembrete vívido de que, embora as forças tectônicas sejam incontroláveis, a capacidade de uma nação de proteger seus cidadãos e sua infraestrutura reside na sua preparação. Investimento em códigos de construção, sistemas de alerta, educação pública e uma resposta emergencial eficaz são os pilares que podem transformar um desastre natural devastador em um desafio gerenciável, minimizando o sofrimento humano e as perdas econômicas.
Fonte: https://g1.globo.com