Na remota província colombiana de Meta, acessível apenas por via fluvial, a história de Perea é um triste reflexo de um desafio nacional. Por um tempo, ele acreditou ser possível romper com o ciclo do narcotráfico. Arrancou os arbustos de coca de sua pequena propriedade, trocando-os por culturas legais como mandioca e banana, na esperança de um futuro mais seguro e digno. Perea foi um dos milhares de agricultores que aderiram a um ambicioso programa governamental de substituição de cultivos, concebido para libertá-los da dependência da cocaína. No entanto, sua jornada de volta à coca em 2024 revela uma falha sistêmica que continua a assombrar a Colômbia.
A Desilusão de Perea e o Vácuo do Apoio Prometido
A decisão de Perea de retomar o cultivo da folha de coca não foi por escolha, mas por necessidade. A matéria-prima da cocaína, que ele havia jurado nunca mais plantar, tornou-se novamente sua única opção viável. A assistência financeira prometida pelo governo para facilitar a transição para culturas lícitas nunca chegou integralmente, e a ausência de infraestrutura adequada, como estradas, combinada com as inundações recorrentes, inviabilizou a comercialização de seus produtos agrícolas legais. "É uma tragédia", lamenta Perea, "Mas, quando você tem filhos e não tem trabalho, que escolha lhe resta? Se a ajuda nunca chega, você volta a cultivar a planta."
O PNIS: Uma Promessa de Paz e Desenvolvimento Rural
O programa ao qual Perea e muitos outros aderiram, conhecido como Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos (PNIS), emergiu do histórico acordo de paz de 2016 entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Tratava-se da tentativa mais abrangente até então de erradicar a coca, prometendo apoio financeiro, que somaria cerca de 36 milhões de pesos colombianos ao longo de dois anos, além de suporte técnico com agrônomos e orientações para o manejo do solo. Cerca de 100 mil famílias foram envolvidas na iniciativa, que gerou grande expectativa nas comunidades rurais, incluindo a de Elena Hernández, que se mudou para a região de Guaviare durante o "boom" da coca na década de 1990 e, após anos de violência, viu no PNIS uma esperança de estabilidade e desenvolvimento para seu território.
A Economia Irresistível da Coca: Vantagens e Impacto Local
A persistência do cultivo da coca, que atinge atualmente níveis recordes de mais de 250 mil hectares, reside nas inegáveis vantagens econômicas que ela oferece aos agricultores. "A coca apresenta algumas vantagens importantes em relação a outras culturas", explica Lucas Marín Llanes, pesquisador colombiano especialista na economia da coca. "As colheitas são rápidas – os agricultores conseguem realizar três ou quatro por ano –, o transporte é mais fácil e eles sabem por qual preço venderão." Essa previsibilidade e rentabilidade são cruciais em regiões isoladas, onde o acesso a mercados para produtos legais é precário. Pesquisas de Marín indicam que a cultura da coca pode até impulsionar as economias locais, elevando o PIB municipal em até 10% em algumas áreas entre 2014 e 2019, contrastando com as dificuldades enfrentadas pelas alternativas lícitas.
Falhas na Implementação e o Impacto das Mudanças Políticas
Apesar do ímpeto inicial, o PNIS enfrentou sérios obstáculos em sua execução. Atrasos nos pagamentos eram frequentes, e o apoio técnico, muitas vezes, não se materializava. A presença estatal precária nas áreas rurais e a falta de coordenação entre os diferentes órgãos governamentais resultaram em um suporte inconsistente e inadequado. Elena Hernández, como Perea, relata a sensação de desamparo: "O governo não estava muito comprometido conosco, agricultores. Fomos maltratados." O programa também sofreu com as mudanças nas prioridades políticas: a administração de Iván Duque, que assumiu a presidência em 2018, redirecionou o foco para estratégias de erradicação forçada e segurança, diminuindo o apoio ao PNIS e, consequentemente, a confiança dos agricultores na iniciativa governamental.
O Legado da Desilusão e o Desafio Contínuo
A história de Perea e as experiências de milhares de famílias colombianas que tentaram, mas não conseguiram, abandonar o cultivo de coca, revelam a complexidade do problema do narcotráfico no país. A desilusão com os programas de substituição, a ausência de um suporte estatal contínuo e a persistência das vantagens econômicas da coca criam um ciclo difícil de quebrar. Enquanto a folha de coca, tradicionalmente usada por comunidades indígenas em chás e medicamentos, é hoje predominantemente processada para a produção de cocaína – com a Colômbia fornecendo cerca de 70% da oferta global –, o desafio de oferecer alternativas viáveis e sustentáveis aos agricultores colombianos permanece uma questão central para a paz e o desenvolvimento do país.
Fonte: https://g1.globo.com