A mais recente edição da Copa do Mundo de Futebol Masculino, em 2026, foi marcada não apenas pela emoção dos gramados, mas também por uma série de incidentes de racismo que trouxeram à tona uma preocupante escalada da discriminação no esporte. Um dos episódios que repercutiu internacionalmente envolveu o capitão da seleção francesa, Kylian Mbappé, após a vitória de sua equipe sobre o Paraguai nas oitavas de final. Comentários considerados racistas, postados online pela senadora paraguaia Celeste Amarilla, geraram intensa discussão pública, motivaram uma investigação da procuradoria francesa e provocaram forte condenação política no Paraguai. Este evento isolado, contudo, é apenas um sintoma de um problema muito maior, conforme alertam especialistas e organizações ligadas ao futebol.
Troy Townsend, ex-chefe de engajamento de jogadores da organização britânica Kick It Out, dedicada ao combate à discriminação no futebol, descreveu a linguagem utilizada pela senadora como um "precedente perigoso". Para ele, a manifestação reflete uma "mentalidade e comportamento que existem há muito tempo e que explodem em uma das maiores ocasiões" do esporte mundial, sugerindo que o racismo, longe de desaparecer, encontrou novas e amplificadas formas de expressão.
Um Torneio Manchetado por Múltiplos Incidentes
O incidente envolvendo Mbappé foi, lamentavelmente, apenas um de vários casos de discriminação racial registrados durante o torneio. A lista de abusos abrangeu diversas naturezas e nacionalidades, demonstrando a amplitude do problema. Três jogadores holandeses, por exemplo, foram alvo de ataques racistas nas redes sociais após perderem pênaltis cruciais contra o Marrocos. Em outro momento, um torcedor argentino foi flagrado ofendendo um influenciador digital com comentários xenófobos, instruindo-o a 'chorar no zoológico', enquanto um torcedor mexicano se desculpou publicamente após ter sido pego fazendo um gesto racista em direção a um coreano.
Ainda na fase de grupos, torcedores do Egito e de Cabo Verde relataram terem sido alvejados com cerveja e garrafas por torcedores argentinos. Em resposta a esse cenário preocupante, o técnico da seleção egípcia, Hossam Hassan, utilizou o gesto oficial da FIFA para denúncias antirracismo, cruzando os braços em X durante uma partida, um ato simbólico que ressaltou a gravidade da situação e a necessidade de combate ativo à discriminação.
A Explosão de Abusos Online: Dados Alarmantes da FIFA
A escala dos abusos durante a Copa de 2026 parece ter sido sem precedentes, conforme revelam os dados da própria Federação Internacional de Futebol (FIFA). O Serviço de Proteção das Redes Sociais da entidade identificou mais de 89 mil publicações ofensivas somente na fase de grupos, um aumento estarrecedor de 13 vezes em comparação com a Copa do Mundo de 2022, realizada no Catar. Deste volume, impressionantes 11% de todas as mensagens detectadas tinham motivação racial. Embora a FIFA reconheça que o aumento do torneio de 32 para 48 seleções e o aprimoramento das tecnologias de detecção de conteúdo abusivo possam ter contribuído para o pico, os números ainda assim evidenciam uma escalada alarmante.
Em face dessas conclusões, o sindicato mundial dos jogadores de futebol, FIFPRO, emitiu um alerta contundente, destacando que os atletas enfrentam um "padrão crescente de abuso", tanto em interações presenciais quanto no ambiente online. A organização foi enfática ao afirmar que "estes incidentes não são isolados; eles indicam um padrão sistêmico que não pode continuar sendo aceito no futebol, nem na sociedade como um todo", sublinhando a urgência de uma resposta coordenada e eficaz.
Racismo em Mutação: Da Arquibancada às Redes Sociais
Pesquisadores que estudam o fenômeno do racismo no futebol há décadas alertam que os incidentes da Copa de 2026 não são desvios isolados, mas parte de uma tendência maior de adaptação e persistência do preconceito. O professor Daniel Kilvington, da Universidade Leeds Beckett, no Reino Unido, e cofundador da rede Esporte & Discriminação, reitera que "o racismo nunca desapareceu. O racismo é muito esperto e muda de forma a cada geração". Ele observa que, enquanto as manifestações abertas de racismo nos estádios podem ter diminuído em relação a décadas passadas, as redes sociais forneceram um novo e poderoso canal para a rápida e global difusão de abusos.
Contudo, Kilvington também aponta para um fenômeno igualmente preocupante: a retomada das expressões racistas nos próprios estádios e em seus arredores. "O problemático não é apenas a migração do racismo para os espaços online, empoderando as pessoas para dizerem coisas abusivas. Nos estádios e no seu entorno, também estamos começando a ver o seu retorno aumentar", disse ele, enfatizando a natureza bidirecional e multifacetada do problema contemporâneo.
A Urgência por Sanções Severas e Ações Concretas
Diante do cenário de abusos crescentes, especialistas como Troy Townsend defendem uma abordagem mais rigorosa e diferenciada para combater o racismo. Ele argumenta que o abuso no estádio e o online, embora interligados, requerem estratégias de enfrentamento distintas. Townsend critica a relutância das autoridades futebolísticas em impor sanções verdadeiramente dissuasórias, sugerindo que medidas mais drásticas são essenciais para conter a onda de discriminação.
"Precisamos começar a ver prisões, sanções a países devido aos seus torcedores, sua eliminação de competições… Se você não consegue controlar seus torcedores, por que deveria poder jogar em algumas das maiores competições do mundo?", questiona Townsend, defendendo que as autoridades do futebol devem ser mais explícitas sobre o que consideram um avanço real na luta contra o racismo. A inação ou a complacência apenas validam e perpetuam o preconceito, minando os valores de inclusão e respeito que o esporte deveria promover.
A Copa do Mundo de 2026, com sua impressionante lista de incidentes racistas e os dados alarmantes da FIFA, serve como um forte lembrete de que o racismo no futebol é um problema sistêmico e persistente. A mera detecção não é suficiente; é imperativo que as entidades governamentais do esporte, federações nacionais, clubes, jogadores e torcedores se unam em um esforço contínuo e decisivo para implementar medidas eficazes. Somente com sanções claras, educação abrangente e um compromisso inabalável com a tolerância será possível erradicar essa mancha do esporte e garantir que o futebol seja, de fato, uma paixão que une a todos, sem distinções.
Fonte: https://g1.globo.com