A Argentina, atualmente semifinalista da Copa do Mundo e buscando um inédito bicampeonato consecutivo – feito apenas alcançado por Itália e Brasil na história –, exibe uma força e coesão que contrastam drasticamente com o cenário de algumas temporadas atrás. O que parecia uma seleção eternamente assombrada por um jejum de títulos de quase três décadas transformou-se em uma máquina vencedora. Para desvendar essa metamorfose, é preciso recuar no tempo, especialmente para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, e, crucialmente, para a Copa América de 2019, no Brasil, um torneio que, embora não tenha terminado em título para os hermanos, pavimentou o caminho para conquistas futuras.
O Legado de Uma Década de Frustrações e o Colapso de 2018
A seleção argentina viveu um período sombrio marcado por campanhas aquém do esperado e pela ausência de troféus significativos por quase 28 anos. A Copa do Mundo de 2018, na Rússia, simbolizou um dos pontos mais baixos dessa trajetória. A fase de grupos foi um verdadeiro calvário, com um empate frustrante por 1 a 1 contra a Islândia, onde Lionel Messi desperdiçou um pênalti, seguido por uma humilhante derrota por 3 a 0 para a Croácia, partida que ficou marcada por uma falha grotesca do goleiro Willy Caballero.
O clima interno na delegação era caótico. Após o revés contra a Croácia, o jornalista Ariel Senosiain revelou, em seu livro 'Crônicas de Ontem', um motim do elenco contra o então técnico Jorge Sampaoli. Liderado por Messi e Javier Mascherano, o grupo exigia maior voz nas decisões táticas. Com as mudanças propostas pelos próprios jogadores, a equipe conseguiu uma vitória apertada por 2 a 1 sobre a Nigéria, que garantiu a classificação. Contudo, nas oitavas de final, uma derrota emocionante por 4 a 3 para a França, eventual campeã, selou a eliminação e adiou, mais uma vez, o sonho do tricampeonato mundial.
A Escolha Controversa e o Início da 'Scaloneta'
Com a saída de Jorge Sampaoli, que tinha contrato até 2022, a Associação de Futebol Argentino (AFA) mergulhou em um período de incerteza. A entidade, já fragilizada pelo escândalo de corrupção da Fifa, o 'Fifagate', demorou dois meses para nomear um novo treinador. A solução encontrada foi a promoção de Lionel Scaloni e Pablo Aimar, que estavam à frente da seleção sub-20, para comandar a equipe principal interinamente. Scaloni foi posteriormente efetivado até a Copa América de 2019, com Aimar como seu auxiliar.
Essa escolha, desprovida de qualquer experiência prévia de Scaloni como técnico principal, foi duramente criticada pela imprensa e por figuras icônicas do futebol argentino. O maior ídolo do país, Diego Maradona, chegou a declarar publicamente que Scaloni não tinha capacidade sequer para 'orientar o trânsito', um reflexo do ceticismo generalizado sobre a capacidade da nova comissão técnica de reerguer a Albiceleste.
Copa América 2019: A Gestação da Nova Argentina
A Copa América de 2019 representou um divisor de águas e o primeiro grande teste para a 'Scaloneta'. O torneio foi palco de uma significativa renovação no elenco: dos 23 jogadores que foram à Rússia em 2018, apenas 10 remanescentes integravam a nova lista. O restante era composto por jovens talentos e novatos na seleção principal. Nomes como Rodrigo De Paul, Leandro Paredes e Lautaro Martínez, que se tornariam pilares e campeões mundiais em 2022, fizeram sua estreia em grandes competições com a camisa argentina, juntamente com Juan Foyth, Germán Pezzella e Guido Rodríguez.
A trajetória no torneio não foi fácil. A equipe começou com uma derrota por 2 a 0 para a Colômbia e um empate por 1 a 1 com o Paraguai. A classificação para as quartas de final veio com uma vitória por 2 a 0 sobre o Catar. No mata-mata, os argentinos superaram a Venezuela por 2 a 0 e seguiram para um clássico sul-americano contra o Brasil nas semifinais. Apesar de uma de suas melhores atuações na competição, a Albiceleste não resistiu aos anfitriões, que venceram por 2 a 0.
O Despertar do Líder: Messi Além do Campo
A derrota para o Brasil, no entanto, revelaria uma faceta inédita de Lionel Messi. Acusado de passividade em momentos críticos da seleção, o capitão argentino protagonizou um dos momentos mais icônicos de sua carreira pós-jogo. Sem meias palavras, Messi expressou sua indignação com a arbitragem, alegando uma 'armação' para favorecer o Brasil. Essa postura veemente, longe da imagem reservada que o acompanhava, marcou uma transformação crucial em sua liderança, demonstrando um engajamento emocional e uma voz ativa que seriam fundamentais para o futuro da equipe.
A Argentina concluiu sua participação na Copa América de 2019 em terceiro lugar, após vencer o Chile por 2 a 1 na disputa pelo bronze. Mais do que o resultado final, a competição serviu como um laboratório essencial, forjando a identidade de um novo time e, principalmente, redefinindo o papel de seu maior craque.
A Colheita dos Frutos: De 2019 aos Títulos Mundiais
Apesar de ter voltado para casa sem o troféu em 2019, a Copa América no Brasil foi o catalisador que a Argentina precisava. Foi ali que a 'Scaloneta' começou a ser lapidada, a desenvolver uma identidade tática e, sobretudo, a consolidar um novo grupo de jogadores comprometidos, muitos dos quais viriam a ser campeões mundiais. A transformação de Messi em um líder vocal e combativo, somada à ascensão de talentos como De Paul e Martínez, criou uma sinergia inédita.
Esse alicerce construído em meio à adversidade de 2019 foi a base para as glórias que se seguiram: a conquista da Copa América de 2021, que encerrou o longo jejum de títulos; o triunfo na Finalíssima de 2022; e, culminando essa jornada épica, o tão sonhado título da Copa do Mundo de 2022. O caminho da crise à glória da Argentina moderna, agora a um passo de um feito histórico, encontrou seu ponto de virada naquela Copa América que, à primeira vista, parecia mais uma decepção.